• Tradução: Gabriel Cabral e Pedro Prates

"Sobre Fotografia de Rua e a Imagem Poética"


Essa publicação é uma tradução livre para a língua portuguesa do livro de Alex Webb e Rebecca Norris Webb, de 2014. Não possuo nenhum direito sobre a obra, sendo essa tradução de caráter exclusivamente educativo.

INTRODUÇÃO por Teju Cole

Há um poema do poeta télugo do século XII, Nanne Choda, sobre o qual eu penso com frequência: "Uma flecha disparada por um arqueiro / ou poema feito por um poeta deve atravessar seu coração, sacudindo a cabeça". Nós vamos para a fotografia para este choque de reconhecimento que registra no corpo. Quando fiz uma oficina com Alex Webb e Rebecca Norris Webb na Aperture Foundation em Nova York, encontrei entre meus colegas uma curiosidade compartilhada sobre o que pode fazer uma fotografia funcionar dessa maneira, o que pode ajudá-la a transcender o comum. Todos nós queríamos saber como potencializar nossas visões fotográficas. Todos nós fomos atraídos para esta oficina em particular, em primeiro lugar, pela nossa admiração pela fotografia dos professores. As fotos de Alex Webbs são prodígios de visão justamente celebrados. Em três décadas de trabalho, ele criou uma voz distinta que é radicalmente diferente de seus antecedentes de fotografia de rua, o trabalho de Henri Cartier-Bresson, Robert Frank e Lee Friedlander. E, no entanto, suas fotografias labirínticas, tão bem construídas são também profundamente emocionais, muitas vezes insinuando realidades além do visível, com o uso hábil da cor quente e sombras escuras. Geoff Dyer, em seu posfácio à monografia de Alex, The Suffering Of Light, descreveu-o como um "fotógrafo metafísico". Fotos cheias de alma também é algo fundamental para o trabalho de Rebecca Norris Webb, que é estilisticamente diferente do de Alex. Na fotografia de rua de Rebecca, o que temos não é a geometria complexa das interações públicas, mas a captação de humores privados em espaços semi públicos, na tradição daquelas fotografias silenciosamente reflexivas de André Kertész, Robert Frank e Saul Leiter - imagens que sugerem tanto sobre a interioridade do fotógrafo quanto sobre o mundo em geral. Penso nas imagens dela como sendo ventiladas, cheias de entradas e saídas. Ela é uma poeta visual de limiares, muitas vezes fazendo uso de reflexos, aquários, cortinas e janelas para evocar aqueles outros locais de reunião mais metafóricos - entre a paisagem interior de uma pessoa e o mundo natural, devaneio e realidade, vida e morte. Lembro-me de sentar com seu livro My Dakota. Um pouco depois, fui atraído para a intensa quietude dessas fotos. O mundo se sente afastado. Eu podia ouvir meu coração batendo. O silêncio, o pesar e a ressaca emocional ao ler cada página me deixaram curioso: como uma fotografa cria essa quietude? Mas nós estudantes não estávamos lá para aprender estilos específicos de fotografia. Não havia dúvida quanto imitar nem Rebecca nem Alex. Estávamos atrás de uma sabedoria maior: sobre a atitude em que se pressiona o obturador, o pensamento com o qual uma série de fotos pode ser sequenciadas, e as realidades que a pessoa precisa negociar para transformar a ideia de um livro em um objeto físico elaborado. Em uma atmosfera agradável e colegial, eles nos ensinaram a perseguir aqueles momentos de poesia fugitiva que estão no coração da grande fotografia. Aprendi muito na oficina dos Webb. O envolvimento deles com essas preocupações - ao mesmo tempo mais prosaicas e muito mais elusivas do que simplesmente "como tirar uma foto" - foi agora publicado neste belo livro. Os balineses dizem: "Não temos arte. Fazemos tudo o melhor que podemos.". Um sentimento semelhante é o rio subterrâneo que flui em Sobre Fotografia de Rua e a Imagem Poética: todos os aspectos do trabalho são consequenciais, e tudo deve ser feito tão bem quanto puder. Não é que os Webb neguem a arte - muito pelo contrário -, mas que eles vejam a arte como algo que surge organicamente de atender com cuidado e experiência a diferentes tipos de coisas: edição, horas do dia, publicação, luto, memória, enigmas, viagem, poesia, cor. O livro mostra que não se trata de um sacola de preocupações, mas sim da parte constituinte de uma visão fotográfica abrangente: um fotógrafo é, como um chef, poeta, atleta ou um bailarino, um "preso do universo ativo", como Wordsworth escreveu, e qualquer fotógrafo cujo interesse se limita à mera fotografia é radicalmente incompleto. O mais vívido para mim é o modo como Alex e Rebecca evocam, a cada passo, o parentesco não apenas entre fotografia e literatura, mas entre o que significa pensar em fotografar, editar e publicar uma sequência de fotografias e o que significa pensar escrevendo. Chegar a uma imagem poética é uma arte mental, não mecânica. Alex era um veterano na faculdade e Rebecca era poeta antes de se tornar fotógrafa; talvez seja por isso que seu ensino e essas páginas estão imbuídos de linguagem como metáfora e como fato. Ao ler o livro, percebo o quão raro é ver os mestres fotógrafos relatarem de forma eloqüente sua prática. Imagens e citações são impecavelmente combinadas aqui, e as sequências se desenrolam graciosamente, como frases bem escritas, com um pensamento levando ao próximo em uma ordem luminosa, mas imprevisível. Uma foto é algo que, tirado em uma fração de segundo, pode ecoar por um longo tempo. Algumas das fotos deste livro - tiradas por Rebecca e Alex, bem como aquelas tiradas por outros fotógrafos e usadas de forma ilustrativa aqui - já são uma parte da minha vida. A fotografia é uma arte misteriosa: é tão "fácil" que milhões de novos fotógrafos terão chegado ao mundo no tempo que leva para ler este ensaio, e é tão profundo que pode ocasionalmente suportar nossos momentos de saudade ou nossos atos de luto. Lembro-me da ambição de Milan Kundera para o sua escrita: "Trazendo ao extremo a extrema gravidade da questão e a extrema leveza da forma". Mas há também um sentimento de que a arte não é de modo algum separada da vida, que a vida é uma grande abertura, que a arte é a vida adequadamente curada, que a questão e a forma são uma só. Este livro preenche um sentido dessa unidade e confirma a declaração de John Ashbery sobre a poesia: "Eu não vejo poesia como obras fechadas. Eu sinto que elas estão o tempo todo na minha cabeça e eu ocasionalmente tiro um pedaço".

Sobre Fotografia de Rua e a Imagem Poética é um livro de fotografia inusitado, em torno dos contornos dos quais são muitas as coisas que não são: nem uma monografia nem uma história, nem um manual de como fazer em nenhum sentido convencional; misericordiosamente despreocupado com equipamentos ou assuntos técnicos; silencioso em qual lente é melhor ou que câmera para comprar, desinteressado em quais aplicativos ajudarão o estudante evadir da paciência que a fotografia requer. Mas para o fotógrafo sério em qualquer nível de especialização, é um olhar espirituoso e tão gentil quanto se deseja em como pensar como um fotógrafo. Este é um livro sobre o coração e a cabeça. É um mapa generoso, desenhado da experiência de dois artistas altamente talentosos, e é ideal para aqueles que desejam trazer com mais frequência, para o seu próprio trabalho, a sacudida de reconhecimento da fotografia.

Alex Webb - Tehuantepec, Mexico, 1985

Rebecca Norris Webb - Havana, 2007 O HOMEM CEGO E O ÔNIBUS

Alex Webb - Havana, 2001

Denis Johnson, o poeta e romancista, certa vez descreveu seu processo de poesia para mim. Anos atrás, ele morava no deserto nos arredores de Phoenix. Todos os dias um homem cego, batendo sua bengala, ia até o ponto de ônibus local. Quando o ônibus chegava, ele nunca perguntava ao motorista o destino. Ele apenas entrava em qualquer ônibus que viesse. Para Denis, isso é poesia. Para mim, a história também sugere um aspecto da fotografia que mais une meu trabalho com o de Rebecca, minha esposa e parceira criativa. Embora os nossas maneiras de ver sejam bastante diferentes, nós dois abraçamos a ideia de que a fotografia e a criação de livros são uma aventura criativa, intuitiva e não racional, espontânea e não antecipada.

Rebecca Norris Webb - Espelho Retroviso, 2005-11 Com seu começo na poesia, a jornada criativa da Rebecca mapeia o mundo natural que ela freqüentemente fotografa - incluindo o oeste americano, onde ela cresceu - e simultaneamente sua própria paisagem interior. Cada vez mais seu trabalho entrelaça seu texto lírico e fotografias, uma maneira única de fazer livros muito guiados pelos seus olhos de poeta. Às vezes, nosso trabalho e jornadas criativas convergem. Isso é mais óbvio em nossos livros e exposições colaborativas, mas também em nossas oficinas, onde tentamos compartilhar com os outros a experiência de trabalhar dessa maneira, com o mundo como seu parceiro. Este livro ecoa nossos vários esforços colaborativos, trabalhando como uma espécie de dueto, ou ponto/contraponto, indo e voltando entre nossas duas visões ligadas, mas distintas, enquanto eu me concentro mais no mundo da fotografia de rua e Rebecca no mundo da imagem poética. Finalmente, acreditamos que, se você tem fé em sua fotografia, isso acabará por levá-lo aonde você precisa ir - qualquer que seja o ônibus que você entre. - Alex Webb (AW) A PRIMEIRA FOTOGRAFIA

Alex Webb - Leste de Londres, 2010

Quando eu estou fotografando pessoas na rua - seja em Londres, Instabul, Madri, Havana, Oxaca, Seul, ou em Nova York, onde moro - a primeira vez que eu aperto o disparador é como se eu estivesse perguntando: Posso tirar uma foto? E a segunda vez: posso tirar outra foto? E depois outra... - AW

O OLHO DA CAMERA

Rebecca Norris Webb - Montanha Fantasma, 2005-11

Originalmente uma poetisa, eu percebi que minha escrita me desertou depois que entrei na faculdade. Olhando para trás, eu ach que o tipo de poesia lírica que eu escrevia não continha o suficiente da amplitude do mundo – nem minha curiosidade sobre ele. Minha resposta ao bloqueio de escrita foi comprar uma pequena câmera e viajar por um ano, na esperança que minhas fotografias despertassem minha poesia novamente quando voltasse. Ao invés disso, me apaixonei pela fotografia. Eu percebi que o olho que focava nas imagens da poesia era o mesmo olho que olhava através da lente. Eu acho que Wright Morris, um poeta e fotógrafo do Nebraska, falou melhor sobre isso: “Eu não deixo de lado o olhar fotográfico quando escrevo, somente a câmera.” - Rebecca Norris Webb (RNW)

PROCURANDO POR FOTOGRAFIAS

Alex Webb - Matamoros, Mexico, 1978 Embora minhas fotografias sejam frequentemente descritas como complicadas, meu real processo como um fotógrafo de rua é muito simples. Eu sinto, quase “cheiro” a possibilidade de uma fotografia. Eu tento seguir o ritmo das ruas, às vezes andando por situações, outras vez permanecendo nelas. Tudo depende do que o mundo me dá em um determinado dia. Essa maneira de trabalhar me lembra o que um professor meu, Charles Harbutt, escreveu certa vez: "Eu não faço fotos, as fotos que me fazem ... não posso fazer nada além de ter filme na câmera e estar alerta.” - AW

Charles Harbutt - Garota na Janela, Maine, 1968

Rebecca Norris Webb - Luz de Tempestade, 2005-11

FALE LEVEMENTE

Rebecca Norris Webb - Brieana, Rocherster, Nova Iorque, 2013

Em sua forma mais básica, a visão de um fotógrafo nada mais é do que a sua ou seu olhar particular. Meu olhar tende a ser sonhador e um pouco torto, como se eu estivesse olhando para o mundo de canto de olho. Talvez seja porque eu era extremamente tímida quando criança, roubando olhares de relance pelo mundo, perdida em devaneios.

Talvez ler poesia demais seja a culpa. Seja qual for a causa, tento seguir a diretriz de Emily Dickinson, minha poetisa favorita: "fale toda a verdade, mas fale levemente.”. - RNW

ANDANDO E ESPERANDO

Josef Kouldeka - Espanha, 1975 Mais frequente do que o contrário, eu me aproximo de um lugar caminhando. Pois o que um fotógrafo de rua faz a não ser andar e observar e esperar e conversar, e então observar e esperar um pouco mais, tentando permanecer confiante de que o inesperado, o desconhecido ou o coração secreto do conhecido aguarda no virar da esquina.

Anos atrás eu estava em um metrô com Josef Koudelka, que eu não via a alguns anos, sentado com minhas pernas cruzadas. De repente, Josef se aproximou e pegou meu sapato, virando o para que ele pudesse inspecionar a sola. De sua maneira direta, tcheca, ele queria ver se eu vinha andando o suficiente - e, consequentemente, fotografado o suficiente. - AW

Josef Koudelka - Altos do Sena, Parque de Sceaux, França, 1978 "A poesia é apenas a sombra do cão... O cão está em outro lugar, e constantemente em movimento." - Charles Wright

Sou mais atraída por imagens poéticas que são sugestivas, elusivas e, em última instância, misteriosas - como o evocativo cão preto de Koudelka. - RNW

A IMAGEM LUMINOSA

Rebecca Norris Webb - Ilha Coney, 1998 "A imagem é uma ideia, uma ideia verdadeira,

primeiro uma ideia que um conceito." - Li-Young Lee Minhas jornadas criativas tipicamente começam com uma imagem que eu vejo no mundo - às vezes uma vez, às vezes repetidamente - uma imagem que por alguma razão entra debaixo da minha pele. Ademais, se mais tarde isso atrair outras imagens, tanto visuais quanto escritas, essas imagens juntas criam uma única entidade - algo maior, mais complicado, mais vivo do que a imagem individual sozinha. Quando isso acontece, posso muito bem ter o começo de um novo livro.

Em The Glass Between Us, a imagem inicial era uma baleia beluga, flutuando quase acima das cabeças dos visitantes do aquário, cujos rostos estavam refletidos no tanque de vidro. Levantando minha câmera, pensei comigo mesmo: Vou me livrar desse reflexo. Então eu percebi, não! - há algo intrigante sobre a relação entre a baleia e os reflexos das pessoas. Eu cliquei o obturador. Essa primeira fotografia começou minha exploração da complicada relação entre pessoas e animais em cerca de vinte e cinco cidades ao redor do mundo.

Na maioria das vezes, eu fotografei os animais em cativeiro através de algum tipo de barreira transparente, como o tanque de vidro em aquários, as caixas de espécies em museus de história natural ou as paredes de acrílico das casas dos macacos em zoológicos. Às vezes, quando a luz estava de certa, o vidro que nos separava mostrava o reflexo das pessoas respondendo aos animais, os rostos criavam uma mescla de maravilha e ironia, encanto e tristeza, conexão e isolamento. Às vezes, quando a luz estava certa forma, o vidro tornou-se uma janela, uma parede e um espelho.

Rebecca Norris Webb - Pássaros Pretos, 2005-11

Enquanto trabalhava em My Dakota, uma elegia (pequeno poema) para um dos meus irmãos que morreu de forma inesperada, fui atraída por um bando de pássaros - milhares deles - voando pelo tempestuoso céu do Oeste como se fossem uma criatura enorme, escura e voraz, pegando os restos dos campos de girassóis nos últimos dias do outono. Parecia não ter importância a rapidez com que parei o carro e levantei a câmera até o meu olho. Inevitavelmente, a revoada escura desapareceu tão rápido quanto tinha aparecido.

Durante uma semana inteira, sonhei com esses pássaros negros. Finalmente, uma tarde perto da pequena cidade de Grey Goose, Dakota do Sul, vi o rebanho pairando sobre o campo de girassóis. Subi pela cerca de arame farpado e corri para o campo, imaginando o que diria ao fazendeiro se ele me pegasse invadindo sua terra. Então aconteceu algo que eu não estava esperando - o rebanho permaneceu por um tempo.

Havia mais sementes do que o habitual para se alimentar? Os girassóis imponentes me escondiam dos pássaros nervosos? Devagar e silenciosamente, eu me aproximei, até que eu estava de pé diretamente atrás de um dos mais altos girassóis do campo. Sob o grande miolo da flor abaixada, eu cliquei o obturador por várias vezes até que o rebanho escuro desaparece mais uma vez no céu nublado, cinzento e frio de Novembro. - RNW

Harry Gruyaert - Trem Paris-Bruxelas, 1979

COR É EMOÇÃO

Alex Webb - Gouyave, Granada, 1979

Como muitos fotógrafos da minha geração, inicialmente trabalhei apenas em preto e branco, influenciado por fotógrafos de rua como Bresson, Kertész, Robert Frank e Lee Ferdinand. Na verdade, como um jovem fotógrafo no início dos anos 1970, eu estava renegando bastante a cor na fotografia, julgando-a como grosseira e comercial, distante do coração e da alma da fotografia. No entanto, em meados da década de 1970, quando comecei a fotografar em preto e branco no Haiti e na Jamaica, bem como ao longo da fronteira entre os EUA e o México, percebi que algo estava faltando - aquela sensação de luz dura e cor intensa desses mundos. Por conta dos lugares onde eu escolhi fotografar - lugares onde a cor parece ser uma parte integral da cultura e onde a vida é frequentemente vivida na varanda e na rua - me tropecei em um jeito de trabalhar em cores vibrantes e saturadas.

Comecei a perceber que a cor não é apenas sobre cor. Cor é emoção e se, preto e branco vem do coração ou da cabeça, "a cor vem mais do estômago", como o fotógrafo belga Harry Gruyaert disse uma vez. Para mim, a cor parece mais sensual do que preto e branco. Às vezes um vermelho pode ser suave e, as vezes vermelho pode significar uma ameaça, tudo depende da sensibilidade, da história pessoal e da cultura que carrega o espectador. - AW

Alex Webb - Cidade de Plant, Flórida, 1989

SOBRE AZUL

Olhando para trás, talvez pode muito bem ter sido o meu primeiro vislumbre dos céus o Oest Americano - do banco de trás do Chrysler 300 de 1964 do meu pai - que mais tarde me transformou em uma fotógrafa de cores. Além das cores dos filmes de Faroeste, eu nunca tinha visto céus tão espetaculares de azul. Aqueles grandes céus de Dakota do Sul falava com a sonhadora que eu era - uma adolescente relutante se mudando para o oeste de Indiana com minha família em 1972 – como eles falam com a fotógrafa que eu sou hoje. "Entre aquela terra e aquele céu me senti apagado, borrado", para citar a narração de Willa Cather em My Ántonia, uma das minhas novelas favoritas sobre as grandes planícies Americanas. Tanto Willa Cather quanto o fotógrafo Robert Adams também se mudaram para o oeste com suas famílias quando estavam crescendo. Eu sempre me perguntei se essa mudança para o oeste, chegando a um lugar tão crucial, ajudou a esculpir suas identidades como artistas e como ambientalistas.

Ao longo dos anos, descobri que os céus do oeste me ensinam tudo que sei sobre o azul. - RNW

Robert Adams - Estrada Estadual de Nebraska 2, Condado de Box Butte, 1979

Rebecca Norris Webb - Badlands, 2005-11

A GRACIOSIDADE DOS OUTROS

​Alex Webb - Bombaim, Índia, 1981

Toda cultura tem seus próprios costumes, suas próprias tradições; Cada grupo de seres humanos tem um senso diferente de privacidade e espaço pessoal. Então, fotografar em ruas em diferentes culturas inevitavelmente exige estratégias diferentes. Em alguns lugares, as pessoas parecem quase abraçar a presença de um fotógrafo; outros resistem a ele. O que funciona para um fotógrafo em Havana, pode não funcionar em Londres. Em Marrocos, as pessoas muitas vezes evitam ser fotografadas por pessoas de fora; na índia, são tão curiosos com estranhos que, mais tarde, muitas vezes nós descobrimos rostos sorridentes inesperados que aparecem as margens das fotografias. Como saber se alguém será aceito em uma determinada cultura? Para mim, a única maneira é simplesmente sair pelas ruas e ver o que acontece. Em um dia de neve na Armênia, fiquei agradavelmente surpreso ao ser convidado para um lanche. Na Jamaica, lembro-me de minha apreensão com um rastafari de olhos vermelhos, com dreadlocks, que me abordou nas ruas de Trenchtown, uma das favelas mais notórias de Kingston, apenas para dizer: "Alguns Rastas, são lobos. Eu sou uma ovelha.". Então ele sorriu largamente - um sorriso anestesiado, induzido por ganja.

Há também muitos lugares onde não se pode simplesmente andar por aí e fotografar, onde há muitos crimes ou violência, ou talvez uma suspeita de generalizada à câmera fotográfica. Nesses casos, o fotógrafo pode precisar de outra pessoa - um assistente social, um líder comunitário ou simplesmente um morador local - para ajudar a entrar nesses mundos. Ou ele pode precisar retornar a um bairro muitas vezes para estabelecer confiança com uma comunidade em particular. No final, não é só o que o mundo dá ao fotógrafo, é também o que o fotógrafo traz para o mundo. Se o fotógrafo parece nervoso na rua, as pessoas ao seu redor também se sentirão nervosas. Se ele aproxima das situações com um senso de naturalidade ou um senso de humor, e com seriedade e respeito pela cultura, ele pode descobrir que será bem recebido em outros mundos. Não há nada de errado com brincadeiras gentis, ou permitir-se ser o alvo de piadas. Afinal de contas, nós, fotógrafos, muitas vezes parecemos um pouco bobos andando pelas ruas em busca daquilo que imaginamos ser momentos indescritíveis. Em última análise, quanto tempo um fotógrafo de rua pode persistir em certas situações é, em grande parte, devido à graciosidade dos outros. - AW

O PARADOXO DE MEATYARD Eu me lembro exatamente onde eu estava quando vi pela primeira vez a fotografia de Ralph Eugene Meatyard: Foi há vinte e cinco anos atrás, na pequena biblioteca no antigo International Center Of Photography em Nova York, onde eu estava estudando fotografia. Eu estava folheando a monografia de abertura, que o poeta e fotógrafo de Kentucky, James Baker Hall, editou em 1974, dois anos após a morte prematura de Meatyard. Fiquei hipnotizada pelas imagens bastante estranhas e misteriosas de Meatyard. Aparentemente simples para os olhos, elas provocam uma série de emoções contraditórias: prazer e melancolia, calma e condenação iminente. Paradoxos parecem estranhamente a vontade em seu trabalho e, olhando para as imagens, eu me sentia a vontade também, ou pelo menos em um terreno familiar - o terreno da poesia. Lembro-me de ter sido particularmente atingida pela seguinte passagem escrita pelo poeta Guy Davenport, amigo de Meatyard, que li pela primeira vez naquela pequena biblioteca do ICP: "Eu assisti Gene durante todo o dia passeando

na arruinada parede branca, fotografando

tão cuidadosamente como se ele fosse um cinegrafista

de noticiário em uma batalha. A velha casa era tão

quieta e imóvel quanto a própria eternidade; mas para Gene era tão efêmero em sua mudança de luz e sombra,

quanto uma mariposa esporádica.” Talvez seja preciso um poeta para iluminar as obsessões de outro poeta. - RNW

Ralph Eugene Meatyard - Sem Título (Michael em frente a parede deteriorada), 1960

ENQUADRAMENTOS CHEIOS

Alex Webb - Novo Laredo, México, 1996

Como um fotógrafo estou sempre procurando por mais – mais elementos que melhoram ou transformam a imagem.

Eu acho que sempre fui atraído por fotografias visualmente complexas. Muitas das minhas primeiras fotografias contêm mais de um elemento, têm mais de um ponto de vista. Com o passar dos anos, elas se tornaram ainda mais complexas. Hoje em dia, muitas vezes sinto como se estivesse andando por uma frágil linha visual– espremendo o quadro para incluir mais e mais, até o quase caos.

Estou intrigado como múltiplos estados, múltiplas situações e múltiplos momentos podem coexistir, espremendo se e qualificando se mutuamente. Eu sou atraído por fotografias que não mostram simplesmente a existência de uma coisa, mas sim a existência simultânea de muitas coisas, algumas vezes de maneiras que podem parecer contraditórias.

Eu não estou falando de complexidade pela simples complexidade. Eu tiro fotos complexas porque o mundo que experimento é um lugar complicado e, em última instância, inexplicável. - AW

Alex Webb - Havana, 2000

EU SONHO COM JORNADAS

Embora a fotografia tenda a ser uma jornada solitária, muitas vezes você acaba levando os outros para o passeio.

Dirigindo pela paisagem ocidental enquanto trabalhava em My Dakota, não pude deixar de pensar na imagen de Robert Frank View de Hotel Window, do trabalho The Americans. Eu sempre fiquei maravilhada com a forma como Frank conseguiu captar não apenas a sensação do centro desta cidade minúscula, mas também algo mais difícil de definir (melancolia? ironia? devaneio? uma mistura de todos os três?). Seja o que for, sugere a complexa interioridade de Frank enquanto olhava através das cortinas transparentes de seu quarto de hotel na distante chaminé da cidade minerada - e a triste realidade do que o Ocidente americano se tornara em meados dos anos 50. É uma visão que não deveria "merecer uma segunda olhada", escreve o crítico e romancista cultural britânico Geoff Dyer, mas "exige que voltemos a ela repetidas vezes". Para mim, isso geralmente é um sinal de que estou olhando para uma imagem verdadeiramente poética.

Não era apenas a fotografia lírica de Frank que vinha em minha cabeça nessa viagem da minha dor e luto pelo meu irmão Dave. Eu também estava trazendo alguns dos meus poemas favoritos de viagem de carro, muitos deles focados no mundo tecnológico do automóvel e do mundo natural fora de suas janelas: "Duas forças - uma para frente movendo-se, sem pensar, outra parada e reflexiva - conectam e desconectam a gente", observa a poeta Marianne Boruch. Ela acrescenta: "A partida sem facilidade parece profundamente americano". Dirigindo pelas extensões remotas de Dakota do Sul, às vezes eu não encontrava outro carro por quilômetros, lembrando aquelas primeiras linhas do poema de viagens de Theodore Roethke, The Far Field:

"Eu sonho com viagens repetidamente . . . De dirigir sozinho, sem bagagem, por uma longa península . . . Uma neve seca e fina toca o para-brisa . . ."

Era quase anoitecer daquele dia de inverno em 2006 quando finalmente parei meu carro em frente a essa casa abandonada. Eu estava dirigindo impaciente por umas quatro horas, através de um trecho da pradaria que nunca havia cruzado antes. Terreno plano e luz plana até onde os olhos podiam ver. Em algum lugar eu tinha virado errada. O rádio do carro avisou que a neve estava chegando. Meu celular estava morto e eu estava perdida.

A fazenda me lembrou da casa dos meus avós, onde passei muitos verões de infância com meu irmão, Dave, seu irmão gêmeo, Mike e minhas irmãs Mary e Debbie. Lembro-me do zunido interminável de besouros na tela da porta traseira da vovó Raisovich, e como ela amarrava uma corda em torno daqueles corpos verdes cintilantes para que pudéssemos nos segurar a todo aquele zumbido.

Chegando ao lado daquela casa abandonada, fiquei surpresa ao encontrar a porta dos fundos aberta, como se estivesse me chamando para entrar. Cruzei cautelosamente o chão da sala de estar, que estava repleto de brinquedos infantis e caixas de cereais. Parecia, sinistramente, como se a família tivesse apressadamente empacotado as coisas e partido na noite anterior - embora tivesse sido a mais tempo, a julgar pelo espessa poeira cobrindo tudo. Talvez as chuvas marginais e o clima brutal de Dakota do Sul fossem, em grande, parte os culpados pela sua partida repentina, tendo derrotado muitos fazendeiros por mais de um século.

Fiz uma pausa em frente a esta janela da sala de estar com sua cortina parecida com uma mortalha e a visão de um silo distante. Eu lentamente levantei a câmera para o meu olho. - RNW

Rebecca Norris Webb - Casa de Fazenda Abandonada l, 2005-11

TERRA INCÓGNITA

Lee Friedlander - Knoxville, Tennessee, 1971

Eu gosto de fotografias que me levam a algum lugar que eu nunca estive antes. Sou atraído por imagens que me expõem a algo inesperado no mundo ou, especialmente, a uma maneira única de ver. Eu amo a surpresa de uma fotografia, o mistério de uma fotografia, a pequena reviravolta ou o toque de humor que faz, de uma fotografia, mágica. Quem, senão Lee Friedlander, teria visto esta nuvem flutuando acima da placa? - AW

Henri Cartier-Bresson - Valência, Espanha, 1933

Aos quatorze anos, comecei a vasculhar os livros de fotografia de meu pai. Enquanto eu contemplava O Momento Decisivo, lembro-me de ter visto esta imagem de Henri Cartier-Bresson de Valência, Espanha. Eu nunca vi nada como isso.

Lembro-me de pensar: como alguém pode ver dessa maneira? Como alguém pode encontrar um momento tão enigmático no mundo e trazê-lo de volta como uma fotografia? Comecei a sentir algo sobre percepção, sobre o momento e sobre o espaço. - AW

A METÁFORA INESPERADA

Rebecca Norris Webb - Ninhos de Andorinhas Quebradas, 2005-11

"Duas verdades se aproximam. Uma vem de dentro, a outra de fora e onde elas se encontram temos a chance de ver nós mesmos."

-Tomas Tranströmer

Você já viu uma preguiça de três dedos passar por um galho de árvore? É uma espécie de cruzamento entre o sonambulismo e um sonolento despertar do início da manhã. Eu acho que minhas imagens lentamente me levam a entender o mundo de uma maneira similar.

"Minha imaginação ... tateia para frente, sentindo o caminho para o que precisa ... estende a mão, dentro da paisagem à nossa frente", escreve o poeta Mark Doty. E essas metáforas agem como um "recipiente para emoção e idéia ... [para] manter o que é escorregadio ou carregado ou difícil de tocar", acrescenta Doty.

Rebecca Norris Webb - Antilocapra, 2005-11

Ao longo dos anos, aprendi que minhas imagens são muito mais sábias do que eu. Muitas vezes me leva meses e às vezes anos para entender o que eles estão tentando dizer para mim. Foi apenas na décima primeira hora, enquanto trabalhava no meu livro My Dakota, uma elegia (pequeno poema) para o meu irmão que morreu inesperadamente, que notei o padrão de ondas em várias das imagens, desde essas faixas azuis onduladas do ninho das andorinhas até as ondas de gelo ao lado de um antilocapra morto descansando em uma vala de beira de estrada. Por quase trinta anos - desde que um rancheiro me deu o fóssil de uma criatura marinha que ele encontrou em sua terra seca - eu fiquei fascinado pelo vasto mar interior que cobriu boa parte de Dakota do Sul há milhões de anos atrás... - RNW

ONDE A ESTRADA É UM RIO

Alex Webb - Everglades, Flórida, 1988

Para mim, a fotografia de rua não significa necessariamente fotografar nas ruas. Por uma razão, a rua nem sempre é onde está o coração da uma cultura. Mais do que qualquer outra coisa, eu acho que a fotografia de rua sugere uma postura ou atitude particular do fotógrafo em relação ao mundo: uma espécie de exploração aberta com ênfase na descoberta, uma sensação de perambulação que é dada pela curiosidade ao invés de uma ideia ou meta inicial.

Durante minhas freqüentes viagens ao Haiti em meados dos anos 80, muitas vezes me vi preso no aeroporto de Miami, esperando a violência em Porto Príncipe diminuísse e o aeroporto do Haiti para reabrir. Como resultado, comecei a olhar para o estado da Flórida. No Haiti, a maioria das pessoas caminha. E é isso que eu fazia. Na Flórida, a maioria das pessoas dirige. Então eu finalmente me vi dirigindo por este estado estranho, visitando parques de diversões e casas antigas, trabalhadores migrantes e adoradores do sol. Em vez da minha caminhada lenta habitual, dirigir se tornou o devaneio. Em vez de me atirar para a frente para fotografar repentinamente as situações, tive que lidar com a porta do carro, uma barreira que não é apenas física, mas psicológica. Quando você está andando na rua, o processo de entrar no mundo de outras pessoas pode ser relativamente sem emendas.

Alex Webb - Rio Amazonas, Colombia, 1993

Quaisquer dúvidas que você tenha sobre a situação podem ser dissipadas dando alguns passos à frente e simplesmente fotografando. Mas deixar a bolha do carro para entrar em outro mundo - isso é outro assunto. Envolve uma série de perguntas sobre se vale a pena parar o carro e sair, só para começar, muito menos tomar as medidas necessárias para entrar nesse outro mundo.

Alguns anos depois de ter fotografado a Flórida, encontrei-me na Amazônia brasileira, o mundo dos mestiços caboclos, onde culturas européias e indígenas se misturam. É um lugar de cabanas em ruínas e festivais fantásticos. A vida é dominada pelo rio, uma fonte primária de alimento e comércio. Muitas comunidades são completamente isoladas, acessíveis somente pela água ou pelo ar. Nesses lugares, eu não conseguia nem usar um carro, muito menos meus pés. Então, por seis semanas, eu vivi em um barco, viajando lentamente rio acima em direção à fronteira colombiana. Meu projeto fotográfico tornou-se uma história de estrada, com o rio uma rodovia, meu barco um carro. - AW

ERROS COMO ROTEIROS "É importante tirar fotos ruins. São os ruins que têm a ver como que você nunca fez antes. Isso pode fazer você reconhecer algo você não tinha visto de uma maneira que vai fazer você reconhece quando vê de novo."

- Daine Arbus

Muitas das minhas folhas de contato do The Glass Between Us estão cheias de erros. Ocasionalmente, alguns contatos não possuem mais do que caudas ou asas borradas; outros mostram imagens mais promissoras impedidas por minhas frustrantrante decisões complicadas. Acabei mantendo algumas dessas folhas de contato para servir como uma espécie de lembrete ou roteiro, para o caso de ter a oportunidade de revisitar o mesmo local.

No início do projeto, uma amiga em Paris, Agnès Sire, que agora é a diretora da Fundação Cartier-Bresson, contou-me sobre um zoológico de Paris que teve uma cena de savana africana pintada por um famoso muralista de francês nos anos 30. Eu visitei vi o adorável e desbotado mural mas, infelizmente, não havia nenhum animal a vista. Um ano depois, decidi voltar ao zoológico. Quando começou a chover suavemente, juntei meu equipamento para sair quando notei que o zelador estava prestes a pastorear um rebanho de girafas para dentro do recinto com o mural. Eu acabei me prolongando por duas horas - apenas as girafas e eu - e fiquei surpresa e encantada com o fato de a deusa da fotografia ter sorrido para mim naquele dia. Como Bruce Davidson, que tirou essa fotografia maravilhosa de um cavalo no País de Gales, uma vez disse, a fotografia depende dos três P's: paixão, persistência e paciência. - RNW

Bruce Davidson - Cavalo, País de Gales, 1965

Rebecca Norris Webb - Paris, 2002

ACASO

Alex Webb - Brooklyn, 11 de Setembro de 2001

A fotografia - ou pelo menos a fotografia não-manipulada - parece rara entre as formas de arte, na medida em que o acaso desempenha um papel no processo criativo. Os fotógrafos estão à mercê do mundo e o mundo e o mundo apenas lhes dão muito. Em 11 de setembro de 2001, lembro-me de assistir na TV com Rebecca quando o segundo avião colidiu com as Torres Gêmeas. Enquanto reunia minhas câmeras em nosso apartamento no Brooklyn para me dirigir à parte baixa de Manhattan, Rebecca - que teve pouca experiência em fotografar conflitos ou violência - disse que queria ir comigo. Eu recuei. Ela não deveria ficar no Brooklyn, longe do caos? Talvez eu nem devesse ir - uma idéia surpreendente para um fotógrafo como eu, que algumas vezes cobri situações violentas no passado. Quem saberia o que poderia acontecer com a nossa cidade naquele dia terrível? E se fôssemos separados e incapazes de nos comunicar durante outra onda de violência? Então escolhemos sair juntos e fazer uma das poucas coisas que sabemos fazer - responder com uma câmera.

E foi uma grande chance, quando, depois de estacionar nosso carro perto da ponte do Brooklyn para ir a Manhattan a pé, uma mulher saiu de um prédio no Brooklyn Heights e perguntou se queríamos ver como era Manhattan do seu telhado. Agora, olhando de volta para esta fotografia cerca de doze anos depois, não tenho certeza se teria visto esta fotografia em particular - com sua nota de ternura e tragédia iminente - se Rebecca não estivesse comigo.

Alex Webb - San Ysidro, California, 1979

No final do verão de 1979, acompanhei um oficial de patrulha de fronteira para observar e fotografar as atividades de sua unidade em San Ysidro, Califórnia, do outro lado da fronteira, em Tijuana, no México. Passamos a maior parte do dia ao longo da "linha", a área perto da cerca da fronteira onde a maioria das prisões estava ocorrendo. Na época, um grande número de migrantes atravessava a região de fronteira com regularidade, e a patrulha de fronteira estava claramente sobrecarregada, muitas vezes prendendo grupos de vinte e cinco ou mais de cada vez. Minhas fotografias das prisões em massa fizeram o trabalho, mas as imagens não eram especiais: elas mostravam como era a situação, mas não como como era o sentimento.

No final do dia, enquanto nos dirigíamos por uma estrada paralela à fronteira, olhei pela janela do passageiro. O sol, difundido por uma neblina do sul da Califórnia, se aproximava do horizonte, e um campo de flores amarelas parecia brilhar em cores. Eu notei pequenas figuras à distância e um helicóptero pairando. Apressando o motorista para parar o carro, eu corri para o campo de flores para testemunhar e fotografar a infelicidade de uma prisão se desdobrando. - AW

PERDIDA E PERDA

Quando olho para algumas das desorientadoras fotografias em My Dakota, como Cottonwoods, uma imagem em que é difícil distinguir o primeiro plano do fundo, percebia que sentir nebulosa, perdida e confusa fazia parte do meu luto. Aqueles primeiros meses depois que meu irmão morreu, meu sonhos com ele pareciam mais real do que quando eu acordava em um mundo sem ele. Além disso, eu não estava dormindo bem e estava viajando sozinha em partes desconhecidas de Dakota do Sul. Quando olho para aquela época difícil da minha vida, lembro-me de um borrão de quartos de motel, estradas secundárias e sonhos com meu irmão.

Talvez não surpreendentemente, eu não apenas me senti confusa ao fotografar em Dakota do Sul, mas também me senti confusa quando voltei para minha casa no Brooklyn para editar o filme e tentar encontrar um sentido no que eu estava fazendo. Eu me lembro de mostrar o trabalho para o meu amigo, Eugene Richards, que naquela época estava indo e voltando do Brooklyn para as Grandes Planícies para trabalhar em seu livro, The Blue Room. Quando ele me perguntou como as coisas estavam indo com o projeto, eu disse a ele que não tinha certeza do que estava fazendo.

Ele respondeu com sua voz gentil: "Becky, às vezes a confusão é boa". - RNW

Rebecca Norris Webb - Cottonwoods, 2005-11 SOMBRAS DE METZKER

Ray Metzker - Sailor, 1963

Como um fotógrafo de rua em formação, eu passava horas encolhido sobre uma pilha de livros na biblioteca da minha escola de Vermont, muitos deles clássicos: obras de Cartier-Bresson, Kertèsz, Frank. Fiquei particularmente impressionado com um pequeno livreto chamado Toward a Social Landscape - que incluiu os primeiros trabalhos de Garry Winogrand, Lee Friedlander e Bruce Davidson, entre outros, e foi editado pelo fotógrafo Nathan Lyons - assim como uma seleção das fotografias de Ray Metzker entitulado My Camera and I in the Loop, em um número da Aperture. Embora rememorativo das fotografias de rua de seu professor, Harry Callahan, o trabalho de Metzker atingiu sua própria nota especial: feixes de luz fortes ecruzando sombras impenetráveis; figuras autônomas entrando e saindo da luz, presas a uma espécie de claro-escuro em preto-e-branco; faces isoladas espiando para fora da escuridão. Não é apenas o domínio formal dessas imagens que me cativa. Elas também sugeriram algo sobre o isolamento, a alienação e a solidão do mundo urbano. - AW

Alex Webb - Kampala, Uganda, 1980

SOBRE TENSÃO CRIATIVA

Rebecca Norris Webb - Havana, 2003

"Eu estou procurando por uma contradição para habitar"

-Rainer Maria Rilke

Meu primeiro livro, The Glass Between Us, foi inspirado por uma citação do poeta polonês Czesław Miłosz: "Estamos separados da natureza como se por uma parede de vidro ... Nós somos parecidos com isso e ainda assim somos alienados por nossa consciência - nossa maldição e nossa benção ". O tipo de tensão metafísica e emocional a que o poeta está se referindo ecoa o conflito interno que às vezes sinto ao fotografar animais em zoológicos. Sempre que eu via uma pitada de sofrimento - especialmente no rosto de macacos ou símios - parte de mim queria ir embora. No entanto, porque essas criaturas são tão atraentes de se olhar, outra parte de mim inevitavelmente quer ficar um pouco mais perto. Esse sentimento de inquietação - a mesma coisa que talvez muitos de nós experimentamos ao visitar zoológicos como adultos - alimentou em grande parte minha jornada de sete anos do The Glass Between Us.

Rebecca Norris Webb - Hot Springs, 2005-11

Às vezes, as tensões criativas estão no próprio livro como um objeto de arte. Penso na elegia da poetisa e tradutora canadense Anne Carson para seu irmão distante, Michael. Chamado Nox, que significa "noite" em latim, o livro de Carson combina sua tradução palavra por palavra da elegia do poeta romano Cátulo para um irmão perdido entrelaçado com várias lembranças do irmão de Carson - fotografias, cartas, selos da Dinamarca onde Michael morreu mais tarde como um fugitivo, todos fragmentos que estão angustiados de alguma forma, seja porque foram copiados repetidamente ou porque foram cortados. Para folhear Nox, é preciso desdobrar este livro de sanfona página por página, um movimento que ecoa o desdobramento lento e fúnebre da jornada criativa de Carson, enquanto ela tentava traduzir a elegia clássica, assim como decifrar a verdade de seu próprio enigmático irmão, a quem ela considera uma "língua separada" que pode ser em última análise, desconhecido. "Cheguei a pensar em traduzir como um quarto", ela escreve, "onde se apalpa pelo interruptor de luz. Acho que nunca acaba. Um irmão nunca acaba . . ." Além disso, a tensão criativa também pode ser parte integrante da estrutura de uma fotografia. Muitas das imagens de My Dakota transmitem essa tensão entre o primeiro plano e o fundo, o próximo e o distante, o solo abaixo e o horizonte distante, tudo o que sugere o abismo entre os vivos e os mortos. Para mim, essa tensão no quadro ecoa a tensão emocional que eu estava experimentando durante o período mais sombrio do meu luto - aquela sensação de estar suspenso entre dois mundos, às vezes flutuando, às vezes puxada em duas direções ao mesmo tempo." - RNW

TERRA INCÓGNITA

Eugene Richards - Depois da Biópsia, 1978

Onde enquadramento corta geralmente cria grande parte da tensão em uma imagem - especialmente em fotografia de pequeno formato. O poder das fotografias de Eugene Richard vêm não só da emoção emocional palpável de seus temas, mas também de como a borda do quadro parece violar as noções tradicionais de espaço e forma, deixando o espectador suspenso, incerto, imaginando o que restou no fotografia - e o que foi deixado de fora.

No livro Exploding Into Life, Richards fotografa a escritora Dorothea Lynch, sua esposa e em sua corajosa batalha contra o câncer de mama, uma batalha que ela acabou perdendo. Para mim, o vasto vazio da parede branca que se ergue acima de seu pálido e recortado rosto sugere enormidades. - AW

O ANTÍLOPE

Rebecca Norris Webb - Gibara, Cuba, 2008

No outono de 2008, durante a última viagem de Alex eu a Cuba para nosso livro Violet Isle, eu estava fotografando nos arredores de Havana um par de quatis de estimação - criaturas semelhantes a guaxinins que são frequentemente caçadas em Cuba. Um homem, cujo nome por acaso era Fidel, apareceu e anunciou: "Eu tenho o animal certo para a sua fotografia - um antílope". Nos quinze anos em que estive fotografando em Cuba, nunca tinha ouvido falar, muito menos visto, de um antílope. Intrigado, falei para Fidel que ligaria para ele no dia seguinte. Então, dois dias depois - não cerca de vinte telefonemas, três carros (incluindo um interrompido por um pneu furado), dois motoristas diferentes e uma boa viagem de três horas pelo interior cubano - finalmente chegamos a uma fazenda comunal, nossa destino. Fidel saiu do carro e foi em direção a um grande celeiro. Cerca de dez minutos depois, ele retornou. "Eu receio ter más notícias para contar", disse ele. "Parece que alguém comeu o antílope". - RNW

PERDIDO EM ESTAMBUL

Alex Webb - Estambul, Turquia, 2001

"Não encontrar o caminho em torno de uma cidade não significa muito. Mas se perder em uma cidade

como se perde em uma floresta, requer

alguma escolaridade. Os nomes das ruas devem falar com

o andarilho urbano como o estralar

de galhos secos, e pequenas ruas no coração da

cidade deve refletir as horas do dia, para ele,

tão claramente quanto um vale montanhoso.."

- Walter Benjamin

Cada cidade tem sua própria forma, suas próprias notas emocionais, seu próprio conjunto de histórias. Andando em Estambul, em um momento eu estou em uma rua que me lembra Barcelona, no próximo eu vou virar uma esquina e me encontrar em um mercado que não estaria fora de lugar no Uzbequistão. Para mim, caminhar, fotografar e às vezes se perder na rua sinuosa de Estambul era a melhor maneira de começar a entender essa cidade complicada que tem tanto o Oriente quanto o Ocidente, antigo e novo, religioso e secular - essa cidade de cem nomes. - AW

LENDO A PAISAGEM Nas noites sozinha em meu quarto de hotel, depois de trabalhar o dia todo em My Dakota, eu frequentemente lia passagens de cópias amassadas de alguns dos meus romances favoritos. Dois desses romances sonhadores e elegíacos foram As Ondas, de Virginia Woolf, e Laços de Família, de Marilynne Robinson, que combinam a perda e a paisagem. Apenas recentemente eu soube que o romance de Woolf era uma elegia para um de seus irmãos, então eu acho que mais do que o acaso me levou a esse trabalho.

Robinson, uma pessoa do oeste americano como eu, falou comigo de maneiras diferentes. Laços De Família é um romance assombroso ambientado em uma paisagem do oeste americano, de perdas e sonhos perdidos, com meninas e mulheres como heróis em vez de fazendeiros e cowboys. Ao contrário da visão tradicional do oeste, onde os tiroteios e John Wayne são grandes, a visão de Robinson é "misteriosa, distante e arrebatadamente gentil". Outro novelista elegíaco que eu estava relendo então era W. G. Sebald, um escritor alemão cujos romances costumam incluir algumas fotografias granuladas em preto e branco. Eu estava especialmente atraído pela última e longa frase dos Os Anéis de Saturno de Sebeld. Eu me vi lendo isso repetidamente, como freqüentemente faço com certos poemas misteriosos e cativantes: ". . .era costume em uma casa onde

houvera uma morte, colocar fitas pretas

de luto sobre todos os espelhos e

todas as telas representando paisagens. . .

de modo que a alma, assim que deixasse o corpo,

não se distraísse no jornada final,

ou por um reflexo de si mesmo ou por um último

vislumbre da terra agora sendo perdida para sempre.."

Talvez a releitura dessas paisagens literárias, enquanto trabalhava em My Dakota, ajudaram a ler as Grandes Planícies com novos olhos - inclusive encontrando esse conjunto estranhamente lindo de sacolas plásticas empaladas em um arame farpado à beira das Badlands.

Rebecca Norris Webb - Ventos Fotes, 2005-11

ROMANCES COMO GUIAS

Alex Webb - Parintins, Brasil, 1993

No início de um projeto pessoal, tento manter um equilíbrio delicado entre intuição e descoberta versus conhecimento discursivo. Eu leio alguns guias, para me dar uma camada do país. E muitas vezes leio um romance que se passa nesse lugar, para me dar uma entrada mais poética naquele mundo. Mas isso é tudo. No entanto, à medida que fotografo mais e olho mais para as minhas fotografias, leio mais - mais história, mais sobre uma cultura - para que, no final de um trabalho, eu tenha um profundo conhecimento intelectual de um lugar. Eu quero que meu conhecimento visual e intelectual de um assunto cresça na mesma proporção. Romances sempre foram uma fonte significativa de inspiração para meus projetos. Em parte, ler Os Farsantes, de Graham Greene - um romance ambientado no Haiti que me fascinou e me assustou - inspirou minha primeira viagem aquele país quando eu tinha 23 anos. E eu suspeito que meu primeiro livro, Hot Light/Half-Made Worlds, que é uma espécie de jornada entre a leveza e a escuridão, da tranqüilidade inicialmente calmante do que eu vagamente penso como "os trópicos" para algo mais profundamente perturbador, se deve a Coração das Trevas de Joseph Conrad. Ao trabalhar na Amazônia e no Paraguai, muitas vezes senti que entrei nos mundos realistas mágicos de Gabriel García Márquez, Mario Llosa Vargas e Augusto Roa Bastos. E As Cidades Invisíveis de Italo Calvino foi parte da inspiração para Rebecca em nosso novo livro conjunto, Memory City, que explora as muitas cidades dentro de Rochester, Nova York, uma cidade enferrujada transformando-se novamente Talvez parte do que torna os romances tão especiais para mim como fotógrafo é que tanto os romances quanto a fotografia podem explorar - ainda que elipticamente - questões políticas e tensões sociais. - AW

OBSESSÃO

Alex Webb - Naco, Mexico 1979

Para mim, todo projeto e livro parece ter uma jornada única. Cada um deles começa como uma obsessão um tanto inexplicável, e parte do desafio é descobrir a natureza individual dessa obsessão em particular, incluindo aonde ela me levará e quanto tempo levará a viagem, muitas vezes sinuosa. No início dos anos 80, à medida que minha obsessão por trabalhar em cores na luz intensa e no calor de vários locais tropicais se aprofundava, comecei a reexaminar minhas fotografias, trabalhando e refazendo as sequências e justaposições, tentando dar sentido ao que eu estava fazendo. No começo, pensei que talvez estivesse fazendo um livro caribenho. Quando eu olhei minhas fotos do Caribe ao lado daquelas do México e de partes da África, entretanto, me dei conta de que, apesar das vastas diferenças culturais e históricas entre esses vários lugares, o trabalho evoluiu da mesma obsessão: a tentativa de captar um sentido da crueza e vibração em camadas e às vezes desarticuladas dessas sociedades, lugares onde e cultura indígena é muitas vezes transformada ou sobreposta por um intruso do norte, lugares onde os rumores sociopolíticos são por vezes ecoados no teatro da rua. O resultado foi o meu primeiro livro, Hot Light/Half-Made Worlds.

Alex Webb - Bombardopolis, Haiti, 1986 Com o avanço da década de 80, eu me via cada vez mais trabalhando no centro e no sul do México. Achei que meu próximo livro seria inteiramente dedicado a esse grande e complicado país. Então, em 1986, o Haiti explodiu em violência - Jean-Claude Duvalier fugiu do país, acabando com um regime familiar de trinta anos. Meus planos mudaram. Voltei ao Haiti pela primeira vez em seis anos para encontrar um país envolvido em tumulto e, pelo menos inicialmente, euforia. E embora eu tenha retornado brevemente ao México para fotografar em 1987, acabei me voltando para o Haiti. Da primavera de 1986 até a primavera de 1988, fiz nove viagens ao Haiti, fotografando a transição de esperança ao desespero do país, à medida que a aliança inicial entre o povo e o exército que levou à deposição de Duvalier terminou em conflito. O corpo de trabalho que produzi daquele triste período na história do Haiti tornou-se meu segundo livro: Under A Grudging Sun. A maioria dos meus projetos parece começar como jornadas exploratórias sem nenhum fim visível à vista. Recentemente, olhei novamente para o trabalho do México - incluindo uma viagem mais recente à fronteira sul - e relendo Octavio Paz. Eu fico pensado se agora é hora de um livro* sobre o México. - AW

Alex Webb - León, Mexico, 1987 *Em 2016, Alex Webb lançou seu livro La Calle, em que reúne mais de 30 anos de fotografias feitas no México. SOBRE TEXTO E IMAGENS Há muito tenho interesse na relação entre texto e imagens, e como os dois podem se iluminar mutuamente. Para mim, é uma das minhas principais obsessões, algo que espero explorar em cada um dos meus livros de fotografia. Em última análise, trata-se de atingir o equilíbrio certo, de modo que uma arte não domine a outra. No início, fui influenciada por dois livros que combinam texto e imagens: Let Elogiemos Os Homens Ilustres, de Walker Evans e James Agee, e God's Country and My People, de Wright Morris. Ambos os corpos de trabalho expandiram minha maneira de olhar para o fotolivro e, eventualmente, levaram ao meu entrelaçamento das duas formas em meu próprio trabalho. Há algo no foto-texto-livro do Morris nascido em Nebraska - no qual ele reúne sua própria escrita com suas fotografias em preto e branco - que tocam algo mais profundo e familiar em mim. Distante e ainda íntimo, duro mas expansivo, seu trabalho sugere os muitos paradoxos que compõem as Grandes Planícies, onde, como Morris, eu também cresci Uma natureza morta de Wright Morris é tão calma e simples e elemental - duas jaquetas esfarrapadas de um agricultor e boné - que sugere a própria pradaria de Nebraska, com poucas ou nenhumas árvores ou casas para prender a mente, a memória, a imaginação. E suas peças sobressalentes evocam um tipo diferente de paisagem, uma espécie de Nebraska particular e interior, uma que sugere o que todo aquele vazio parece para as pessoas que cresceram nas Grandes Planícies, um lugar que também crescia dentro delas. -RNW

Walker Evans - Parte da Cozinha, 1935-36

Wright Morris - Páginas em God's Country and My People, 1968 A ARTE DO FRACASSO

Alex Webb - Munique, 1991 Fotografia de rua é 99,9 por cento sobre o fracasso. Tantas vezes me sinto derrotado pela rua. Às vezes, no entanto, acho que, se eu continuar andando, continuar procurando e continuar me esforçando, eventualmente algo interessante acontecerá. De vez em quando, no final do dia, quando estou mais exausto e com fome, alguma coisa - um raio de luz, um inesperado gesto, uma estranha justaposição - de repente revela uma fotografia. É quase como se eu tivesse que passar por todas aquelas horas de frustração e fracasso, a fim de chegar ao lugar onde eu pudesse finalmente ver aquele momento singular no final do dia. - AW

Rebecca Norris Webb, Vitral, 2005-11

SOBRE TOM "Sua ausência passou por mim Como um fio através de uma agulha. Tudo o que faço é costurado com sua cor". - W. S. Merwin Mais ou menos na metade do caminho de My Dakota, eu estava olhando minhas impressões de trabalho perto de Hermosa, Dakota do Sul, com a poeta e ensaísta Linda Hasselstrom. Como eu, ela havia perdido uma pessoa importante em sua vida. Estávamos conversando, tentando descobrir o que eu tinha deixado de fotografar.

"Eu vejo verão, outono e inverno nessas fotografias", eu disse a Linda na casa de sua fazenda, com vista para um quebra-vento de zimbro. "Mas eu não vejo primavera"."Quando você está de luto", ela me disse suavemente, "não há primavera". Alex chama o tom de My Dakota de "outonal".

ESTANDO LÁ

Francisco Goya - O 3 de Maio de 1808, óleo sobre tela, 1814

"...para julgar uma coisa, você tem que estar lá"

-O jornalista polonês Ryszard Kapuściński citando seu compatriota, o antropólogo Bronislaw Malinowski

Para mim, a noção de "estar lá" nos é que é tão notável sobre a fotografia documental em seu sentido amplo, incluindo fotografia de rua e reportagem. Não é pintura, nem escultura ou ficção. Parafraseando Charles Harbutt: Se você colocar um pintor em uma sala branca e lhe der pinturas e uma tela, esse pintor ainda pode produzir uma paisagem, um retrato ou um trabalho abstrato. Ele é limitado apenas pela sua imaginação. Se você colocar um fotógrafo com uma câmera na mesma sala, o fotógrafo poderá produzir uma foto em branco, uma foto cinza, uma foto preta e um autorretrato. Por sua própria natureza, a fotografia documental é uma gravação direta do mundo.

Dmitri Baltermants - Luto, 1942

O fotógrafo documental nunca pode confiar inteiramente na imaginação: essa é uma das maiores fraquezas desse tipo de fotografia. Ele precisa da colaboração com o mundo. Mas também é um dos seus maiores pontos fortes. Nenhum outro meio, exceto o filme documentário, pode alegar que, em algum nível, a imagem "aconteceu". O fotografo pode ter escolhido onde ficar e quando apertar o disparador, mas a fotografia documental ratifica algum tipo de relação única com o mundo físico, com o tempo e com a história. Fico profundamente comovido com a cena de batalha do fotógrafo russo Dmitri Baltermants e com o pintor espanhol Goya, em Três de Maio. De fato, posso muito bem ser mais absorvido pela riqueza da pintura de Goya. Mas a foto de Baltermants continua me puxando - isso realmente aconteceu, isso é história. Baltermants estava lá entre o aqueles de luto. - AW A SABEDORIA DA RE-VISÃO Para mim, uma das lições criativas mais difíceis tem sido aprender a atender ao trabalho, não a pretender. O que chamo de processo de "re-visão" - para editar ambos, textos e imagens - baseia-se na fé de que minhas imagens são mais sábias do que eu Meu processo de re-visão fotográfica é semelhante ao que eu uso quando escrevo poesia, uma escavação criativa para descobrir e começar a entender o que o trabalho é verdadeiramente sobre contra o que eu pensava inicialmente que era. Essencialmente, envolve tentar usar o mesmo olho espontâneo e intuitivo no estúdio, enquanto edito as folhas de contato, nas quais confio quando fotografo no mundo. Eu ainda uso filme, então muitas vezes não é até semanas depois que eu primeiro olho para as folhas de contato. Mais e mais, percebi como é crucial esse período de espera. Algo parece acontecer com a imagem enquanto espero que a gêmea não-idêntica - a imagem no filme - seja revelada. Ele flutua no olho da minha mente por algumas semanas, ao mesmo tempo em que é banhado em inúmeras associações conscientes e inconscientes. Eu acho que você poderia dizer que dois tipos muito diferentes de desenvolvimento estão ocorrendo durante este período rico e fértil, ambos os quais desempenham um papel no meu processo final de re-visão. - RNW

Rebecca Norris Webb - Folha de Contato de Pássaros Pretos, 2006

SINFONIA E SONATA

Alex Webb - Paraguai, 1990 Costumo estruturar meus próprios livros de fotografia emocionalmente e quase musicalmente: um grande livro é como uma sinfonia, um pequeno livro como uma sonata. Para mim, o fluxo e o movimento dos livros de fotografia podem corresponder a notas emocionais, matizes de cor ou modulação de luz e escuridão. Meu primeiro livro, Hot Light/Half-Made Worlds, se move da luminosidade à escuridão - literal e emocionalmente - passando por uma série de estados emocionais intermediários ao longo do caminho. From the Sunshine State, meu livro sobre a Flórida, tem uma estrutura mais frágil - semelhante ao sícope do jazz - que, para mim, ecoa a inesperada variedade de muitas comunidades da Flórida: a surpresa de descobrir uma casa velha próxima a uma comunidade haitiana próximo a um parque de diversões. E o meu priemiro livro colaborativo com Rebacca, Violet Ilse, funciona como um dueto, explorando o ponto/contraponto de nossas respectivas e distintas visões. - AW

LEVE COMO UM PÁSSARO

Rebecca Norris Webb - Gibara, Cuba, 2008

A forma como você colabora com o mundo pode ajudá-lo a descobrir a metáfora central de um livro ou projeto. Enquanto trabalhava em Violet Isle com Alex, a criatura mais comum que eu encontrei em menageries (zoológicos) cubanos era o pássaro - de galos e pavões para calopsitas e pombos e papagaios. Eu amo a complexa e ressonante pergunta que isso levanta: de todas as criaturas, por que as aves são os animais mais populares em menagerie cubanos? Isso sugere algum tipo de desejo de voar em um país onde poucas pessoas podem viajar? Isso sugere algo sobre os cubanos e sua relação com o mundo natural da "ilha violeta" - um apelido pouco conhecido para Cuba inspirado na cor de seu solo - essa "ilha em uma bolha" ambiente que os cientistas agora acreditam ser um dos mais protegidos da região, por causa da escassez de plásticos e outros poluentes? Ao longo dos anos, aprendi que quanto mais perguntas uma imagem em particular evoca, mais rica a metáfora será. Quando comecei a fotografar pássaros em Cuba, também foi um período da minha vida que correspondeu aproximadamente ao fato de eu ter adquirido meu primeiro par de binóculos profissionais - um presente da minha cunhada, a notável ilustradora ornitológica Sophie Webb - para ver os falcões e garças no Prospect Park, parto do meu apartamento no Brooklyn. Durante uma de minhas últimas viagens a Havana, lembro-me do prazer de ver um falcão vermelho tentando abrir suas asas a poucos centímetros de mim - em vez de observar o raptor da distância habitual de meus binóculos. No entanto, ao mesmo tempo, também senti algo prender-me em minha garganta enquanto observava o falcão atrapalhar-se, incapaz de abrir suas asas completamente em uma gaiola tão pequena. Olhando para trás, tanto a observação de aves como a visita a menageries cubanos ajudaram a guiar-me para a ponte como uma das metáforas centrais da Violet Isle, assim como o conselho do poeta francês Paul Valéry: "Deve se ser leve como um pássaro e não como uma pena. ". - RNW

Rebecca Norris Webb - Havana, 2008

TEMPO COMO EDITOR

Alex Webb - Paraguai, 1990 O tempo costuma ser o melhor editor. A maneira como você percebe seu trabalho no dia seguinte que você fotografa é muito diferente de uma semana depois, e significativamente diferente de três semanas depois - ou três meses. O tempo ajuda a livrar-se daqueles apegos sentimentais a uma fotografia: "Eu realmente gosto dessa pessoa que eu fotografei então a imagem deve ser boa" ou "Eu trabalhei muito nessa foto para que ela tenha sucesso". O tempo te dá a distância necessária.

No início de 2001, depois de vinte e seis anos fotografando ao longo da fronteira entre os EUA e o México, eu finalmente me senti pronto para colocar o projeto na cama. Eu selecionei o que eu achei que fossem as minhas mais bem sucedidas fotografias de muitas viagens ao longo dos anos, começando com imagens em preto e branco da década de 1970 até a minha última viagem em 2001.

Enquanto brincava com as pequenas impressões - emparelhando-as, sequenciando as, vendo como falavam umas com as outras e como falavam comigo - ficou claro que faltava uma fotografia. Eu me lembrei de uma que eu tinha feito de um grupo de mexicanos com quem eu viajei quando cruzavam ilegalmente para a Califórnia. Eu não tenho certeza o por quê de eu ter ignorado tanto essa foto vinte e dois anos antes. Olhando para trás, talvez eu estivesse tão perto da idade desses jovens homens mexicanos que não conseguia perceber sua vulnerabilidade como faço agora. - AW

FAZENDO PERGUNTAS

Alex Webb - Havana, 2001 Espero trazer de volta fotografias do mundo que abram os olhos das pessoas - imagens que sugerem a natureza enigmática do mundo em que vivemos, bem como sua variedade, complexidade, beleza e dor. Não é para eu dizer aos espectadores o que encontrar nas minhas fotografias; é para eles descobrirem. Eu acredito que os espectadores, dependendo de quem eles são - sua cultura, sua educação, sua personalidade única - encontrarão algo diferente nas fotografias. Eu acredito em fotografias que transmitem um certo nível de ambiguidade, que fazem perguntas ao invés de fornecer respostas. - AW

SOBRE COLABORAÇÃO

Rebecca Norris Webb - Havana, 2008

"Rachaduras são uma oferta entre um colaborador

e outro . . . é assim que a luz entra."

-poetisa C. D. Wright sobre sua colaboração com a fotógrafa Deborah Luster.

Ao longo dos anos, Alex e eu aprendemos que é necessário ser duro no trabalho um do outro. Se eu sou o autor do livro - como com o My Dakota - seleciono a primeira seqüência de imagens, e o Alex dá uma olhada e me me diz exatamente o que ele pensa. Com o My Dakota, eu temia que eu estivesse muito próximo do ponto de vista emocional para ver a forma de um corpo de trabalho tão pessoal, de modo que os insights de Alex foram particularmente úteis. A artista Joyce Kozloff diz que a jornada mais difícil que seu trabalho faz é a viagem de seu estúdio para fora de sua porta da frente. Isso porque seu marido, fotógrafo de rua e crítico de arte Max Kozloff, sempre pesa antes de seu trabalho ser lançado no mundo. Felizmente, uma das regras da nossa casa é que o artista sempre tem a palavra final. Talvez seja por isso que nosso casamento tenha sobrevivido o tanto - quase quinze anos. Mas também é por isso que nossos projetos colaborativos, como Violet Isle e Memory City, são muito mais difíceis de navegar do que nossas monografias. - RNW

Alex Webb - Havana, 200

Violet Isle não começou como uma colaboração. Foi apenas antes de nossa décima primeira e última viagem a Cuba que Rebecca e eu percebemos que estávamos trabalhando em um projeto conjunto. Através do processo de edição muitas vezes arduos, nós lentamente começamos a ver como nossas imagens podiam falar umas com as outras. Em seu posfácio para Violet Isle, Pico Iyer escreve que às vezes nossas fotografias "rimam". - AW

O REFRÃO VISUAL

Rebecca Norris Webb - Tês Maças, 2005-11

"A arte de perder não é difícil de dominar."

-Elizabeth Bishop

Depois que meu irmão morreu, eu me voltei para a poesia como consolo, não como livros de fotografia. Alguns dos únicos poemas que falaram comigo durante o período mais sombrio foram os villanelles , incluindo The Waking, de Theodore Roethke, e One Art, de Elizabeth Bishop. Nesses poemas, cada refrão é repetido quatro vezes - e cada vez seu significado muda, tropeça, recua, se aprofunda - como "um fato emocional, que o intelecto ... tenta em vão e em vão escapar", escreveu o poeta. Ezra Pound sobre essa forma específica. - RNW.

Rebecca Norris Webb - Maças Caídas, 2005-11

Se aqueles vilanelles não tivessem falado comigo quando eu estava mais atolado em luto, eu poderia não ter seguido a forte atração das repetidas imagens de My Dakota em meu texto e fotografias - maçãs, veados, ondas - e encontrado a estrutura elegíaca do livro, que ecoa a jornada tortuosa do meu coração e mente de luto. E talvez eu não tenha encontrado meu caminho para o meu segundo livro conjunto com Alex, Memory City e seu próprio refrão elegíaco - uma série de vestidos e retratos de mulheres passadas e presentes em Rochester, Nova York, lar da Eastman Kodak, que declarou a falência em 2012. Eu ainda uso filmes para todo o meu trabalho, então essas imagens repetidas são minha meditação sobre o tempo, a memória, o filme e a própria cidade, durante os últimos dias do filme como a conhecemos. - AW

Rebbeca Norris Webb - Vestido de formatura vermelho de segunda mão, Rochester, Nova Iorque, 2012

NO FIM DO DIA

Alex Webb - Istambul, Turquia 2001 "Mito é o discurso do crepúsculo de um homem velho para um menino." -Maya Deren

Mesmo em um mundo dominado pela eletricidade e pela luz artificial, o crepúsculo continua mágico. Quando a luz do dia diminui e as luzes das ruas começam a brilhar, diferentes tipos de luzes entram em equilíbrio. Os tons âmbar do pôr-do-sol contrastam com o verde dos postes de vapor de mercúrio. Ou as invasivas sombras azuis da noite compensam o calor das lâmpadas incandescentes. Ao anoitecer, esses diferentes tipos de luzes esculpem seus próprios espaços separados, seus próprios mundos distintos de cor. - AW

Alex Webb - Sancti Spíritus, Cuba 1993

VIVENDO E MORRENDO

"Eu estou vivendo. Eu lembro de você." -Marie Howe

Levei muito da minha vida para confiar no meu processo criativo, um caminho vagaroso e lento para entender a vida, a morte e o mundo através do processo de fotografar - e às vezes de escrever sobre - imagens que me intrigam por algum motivo. Enquanto trabalhava em My Dakota, uma das minhas respostas à morte de meu irmão foi o bloqueio de escritor. Somente no final do projeto minha escrita voltou - peças de texto sobressalentes com quatro linhas de comprimento. Elas sempre vinham a mim quando eu acordava no meu quarto de motel enquanto viajava sozinho pela paisagem de Dakota do Sul.

"Uma vez pensei que o vi-

era final do outono no Missouri

as costas de um casaco marrom desaparecendo

nas árvores. Foi um homem ou um cervo?"

"O Luto é , lamentar, chorar, deixar a tristeza habitar o próprio ser", escreve o poeta Edward Hirsch. Ele acrescenta: "Implícito na poesia é a noção de que somos aprofundados por desgostos, que não somos tão diminuídos quanto aumentados pela tristeza, pela nossa recusa a desaparecer - deixar os outros desaparecerem - sem deixar um registro poético". O poeta Stanley Kunitz, um amigo próximo dos pais de Alex, costumava dizer que ser humano era "conhecer a si mesmo para viver e morrer ao mesmo tempo". Olhando para o My Dakota, percebo que estava fotografando esse momento difícil da minha vida para tentar absorvê-lo, cristalizá-lo e, finalmente, deixá-lo para trás. Não só a minha primeira tristeza me mudou, mas também fez My Dakota me mudar, tanto como ser humano quanto como artista. - RNW

Rebecca Norris Webb - Nevasca na Casa de Campo, 2005-11

FINS COMO COMEÇO

Alex Webb - Erie, Pensilvânia, 2010

Às vezes, a última foto de um livro aponta o caminho para o próximo projeto. A última fotografia em Hot Light/Half-Made Worlds, meu primeiro livro, mostra um menino em um depósito de lixo em chamas em Porto Príncipe. É uma foto que prefigura meu próximo livro, Under a Grudging Sun, no Haiti. As últimas fotos do meu livro de pesquisa, The Suffering of Light, de Erie, Pensilvânia, apontam para Memory City, um livro colaborativo com Rebecca em outra cidade dos Estados Unidos, Nova York.

Às vezes, as fotografias têm uma maneira estranha de nos dizer para onde vamos antes mesmo de nos darmos conta. - AW

Rebecca Norris Webb - Sta Teresa de Lisieux, 2005-11

O SEGREDO DA VIDA

Alex Webb - Comitán, México, 2007

"O segredo da vida é ter uma tarefa, algo para o qual você dedica toda a sua vida, algo para o qual você traz tudo, a cada minuto do resto da vida. E o mais importante é que deve ser algo que você possivelmente pode não fazer", disse o escultor Henry Moore ao poeta Donald Hall, no final da vida produtiva e produtiva de Moore. Rebecca e eu voltamos novamente à descrição de Moore da jornada criativa. Isso nos lembra que o mais importante é continuar fotografando - não importa o quão frustrante e impossível seja o processo, às vezes, não importa quantos becos sem saída ou desvios sejam encontrados. No final, isso nos lembra que basta entrar no ônibus. - AW

Rebecca Norris Webb - Vestido de Formatura de segunda mão azul, Rochester, Nova Iorque, 2012

Alex Webb - Rochester, 2013

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