VAMOS NOS PERDER

2018

Nesse conto fotográfico, te convido
para uma jornada onírica pela noite.

Veja essa história em uma tela grande!
Soaram as doze badaladas.
       ...Mais uma vez acordei cambaleando.
“Depois de hoje, a vida não seria mais a mesma
        a menos que eu insista em me enganar.
Aliás, depois de ontem também foi assim,             antes de ontem.. Antes... Amanhã.”
 
                      Paulo Leminski

Quis sair me embrenhando no desconhecido, sabia que estava
 novamente entregue à cidade.

  Via ratos já dando as caras,        cafetões faturando alto
  e os tontos acreditavam que eram reis.

O peso da ressaca me atrasava.

Descia rodando por um
labirinto de memórias.

Enquanto dobrava as esquinas, 
   iluminava por entre a névoa com
             uma vela de luz marfim.

No fundo de um beco,
uma figura de chapéu acendia um cigarro.

 Com ânsia de me entorpecer,
fui chegando dissimulado.

Ele falava pausadamente
                e com palavras soltas.

     Quando,
   finalmente,
 me cedeu um alívio,
me impôs também um desafio:

"encontrar a chave                        pelos níveis

                    da noite"

Segui eufórico, meio chapado,
        e esbarrei em alguém.

Caí!

Mas não ralei
    no asfalto,

derreti!

Fui escorrendo pelo ralo
até alguns

andares abaixo.

 Estava em queda espiral...

...tropeçando em copos ácidos,

...e mergulhando

em fumaças

doces...

                      Pairava pela zoeira escura,
         em um jogo de me equilibrar no meio fio
                             sem olhar para baixo.

Um tiro!

Senti pesar as costas, e olhei em direção ao barulho.

 Eu via, mas não o reconhecia.
Senti calafrios e náuseas.
Acho que foi ali que perdia um pouco a consciência.

meus sentidos estavam nublados...

   conseguia perceber vultos ao meu redor.

era a toca do coelho!

abri os olhos:

  ...com a cabeça inchada,
tentei me levantar,

mas fui atingido novamente.

sabia que era fugir ou morrer,

e eu precisava escapar.

encerrar esse ciclo,

começar tudo de novo...

"Achar a porta que esqueceram de fechar

O beco com saída

A porta sem chave

A vida."

 Paulo Leminski