"Sobre Fotografia de Rua e a Imagem Poética"

Essa publicação é uma tradução livre para a língua portuguesa
do livro de  Alex Webb e Rebecca Norris Webb, de  2014.
Não possuo nenhum direito sobre a obra, sendo essa
tradução de caráter exclusivamente educativo.


INTRODUÇÃO
       por Teju Cole

 

Há um poema do poeta télugo do século XII, Nanne Choda, sobre o qual eu penso com frequência: "Uma flecha disparada por um arqueiro / ou poema feito por um poeta deve atravessar seu coração, sacudindo a cabeça". Nós vamos para a fotografia para este choque de reconhecimento que registra no corpo. Quando fiz uma oficina com Alex Webb e Rebecca Norris Webb na Aperture Foundation em Nova York, encontrei entre meus colegas uma curiosidade compartilhada sobre o que pode fazer uma fotografia funcionar dessa maneira, o que pode ajudá-la a transcender o comum. Todos nós queríamos saber como potencializar nossas visões fotográficas.
   Todos nós fomos atraídos para esta oficina em particular, em primeiro lugar, pela nossa admiração pela fotografia dos professores. As fotos de Alex Webbs são prodígios de visão justamente celebrados. Em três décadas de trabalho, ele criou uma voz distinta que é radicalmente diferente de seus antecedentes de fotografia de rua, o trabalho de Henri Cartier-Bresson, Robert Frank e Lee Friedlander. E, no entanto, suas fotografias labirínticas, tão bem construídas são também profundamente emocionais, muitas vezes insinuando realidades além do visível, com o uso hábil da cor quente e sombras escuras. Geoff Dyer, em seu posfácio à monografia de Alex, The Suffering Of Light, descreveu-o como um "fotógrafo metafísico".
  Fotos cheias de alma também é algo fundamental para o trabalho de Rebecca Norris Webb, que é estilisticamente diferente do de Alex. Na fotografia de rua de Rebecca, o que temos não é a geometria complexa das interações públicas, mas a captação de humores privados em espaços semi públicos, na tradição daquelas fotografias silenciosamente reflexivas de André Kertész, Robert Frank e Saul Leiter - imagens que sugerem tanto sobre a interioridade do fotógrafo quanto sobre o mundo em geral. Penso nas imagens dela como sendo ventiladas, cheias de entradas e saídas. Ela é uma poeta visual de limiares, muitas vezes fazendo uso de reflexos, aquários, cortinas e janelas para evocar aqueles outros locais de reunião mais metafóricos - entre a paisagem interior de uma pessoa e o mundo natural, devaneio e realidade, vida e morte. Lembro-me de sentar com seu livro My Dakota. Um pouco depois, fui atraído para a intensa quietude dessas fotos. O mundo se sente afastado. Eu podia ouvir meu coração batendo. O silêncio, o pesar e a ressaca emocional ao ler cada página me deixaram curioso: como uma fotografa cria essa quietude?
   Mas nós estudantes não estávamos lá para aprender estilos específicos de fotografia. Não havia dúvida quanto imitar nem Rebecca nem Alex. Estávamos atrás de uma sabedoria maior: sobre a atitude em que se pressiona o obturador, o pensamento com o qual uma série de fotos pode ser sequenciadas, e as realidades que a pessoa precisa negociar para transformar a ideia de um livro em um objeto físico elaborado. Em uma atmosfera agradável e colegial, eles nos ensinaram a perseguir aqueles momentos de poesia fugitiva que estão no coração da grande fotografia.
   Aprendi muito na oficina dos Webb. O envolvimento deles com essas preocupações - ao mesmo tempo mais prosaicas e muito mais elusivas do que simplesmente "como tirar uma foto" - foi agora publicado neste belo livro. Os balineses dizem: "Não temos arte. Fazemos tudo o melhor que podemos.". Um sentimento semelhante é o rio subterrâneo que flui em Sobre Fotografia de Rua e a Imagem Poética: todos os aspectos do trabalho são consequenciais, e tudo deve ser feito tão bem quanto puder. Não é que os Webb neguem a arte - muito pelo contrário -, mas que eles vejam a arte como algo que surge organicamente de atender com cuidado e experiência a diferentes tipos de coisas: edição, horas do dia, publicação, luto, memória, enigmas, viagem, poesia, cor. O livro mostra que não se trata de um sacola de preocupações, mas sim da parte constituinte de uma visão fotográfica abrangente: um fotógrafo é, como um chef, poeta, atleta ou um bailarino, um "preso do universo ativo", como Wordsworth escreveu, e qualquer fotógrafo cujo interesse se limita à mera fotografia é radicalmente incompleto. 
   O mais vívido para mim é o modo como Alex e Rebecca evocam, a cada passo, o parentesco não apenas entre fotografia e literatura, mas entre o que significa pensar em fotografar, editar e publicar uma sequência de fotografias e o que significa pensar escrevendo. Chegar a uma imagem poética é uma arte mental, não mecânica. Alex era um veterano na faculdade e Rebecca era poeta antes de se tornar fotógrafa; talvez seja por isso que seu ensino e essas páginas estão imbuídos de linguagem como metáfora e como fato. Ao ler o livro, percebo o quão raro é ver os mestres fotógrafos relatarem de forma eloqüente sua prática. Imagens e citações são impecavelmente combinadas aqui, e as sequências se desenrolam graciosamente, como frases bem escritas, com um pensamento levando ao próximo em uma ordem luminosa, mas imprevisível.
   Uma foto é algo que, tirado em uma fração de segundo, pode ecoar por um longo tempo. Algumas das fotos deste livro - tiradas por Rebecca e Alex, bem como aquelas tiradas por outros fotógrafos e usadas de forma ilustrativa aqui - já são uma parte da minha vida. A fotografia é uma arte misteriosa: é tão "fácil" que milhões de novos fotógrafos terão chegado ao mundo no tempo que leva para ler este ensaio, e é tão profundo que pode ocasionalmente suportar nossos momentos de saudade ou nossos atos de luto. Lembro-me da ambição de Milan Kundera para o sua escrita: "Trazendo ao extremo a extrema gravidade da questão e a extrema leveza da forma". Mas há também um sentimento de que a arte não é de modo algum separada da vida, que a vida é uma grande abertura, que a arte é a vida adequadamente curada, que a questão e a forma são uma só. Este livro preenche um sentido dessa unidade e confirma a declaração de John Ashbery sobre a poesia: "Eu não vejo poesia como obras fechadas. Eu sinto que elas estão o tempo todo na minha cabeça e eu ocasionalmente tiro um pedaço".

   Sobre Fotografia de Rua e a Imagem Poética é um livro de fotografia inusitado, em torno dos contornos dos quais são muitas as coisas que não são: nem uma monografia nem uma história, nem um manual de como fazer em nenhum sentido convencional; misericordiosamente despreocupado com equipamentos ou assuntos técnicos; silencioso em qual lente é melhor ou que câmera para comprar, desinteressado em quais aplicativos ajudarão o estudante evadir da paciência que a fotografia requer. Mas para o fotógrafo sério em qualquer nível de especialização, é um olhar espirituoso e tão gentil quanto se deseja em como pensar como um fotógrafo. Este é um livro sobre o coração e a cabeça. É um mapa generoso, desenhado da experiência de dois artistas altamente talentosos, e é ideal para aqueles que desejam trazer com mais frequência, para o seu próprio trabalho, a sacudida de reconhecimento da fotografia.
 

Alex Webb - Tehuantepec, Mexico, 1985 
 

Rebecca Norris Webb - Havana, 2007


O HOMEM CEGO E O ÔNIBUS

 Alex Webb - Havana, 2001


Denis Johnson, o poeta e romancista, certa vez descreveu seu processo de poesia para mim. Anos atrás, ele morava no deserto nos arredores de Phoenix. Todos os dias um homem cego, batendo sua bengala, ia até o ponto de ônibus local. Quando o ônibus chegava, ele nunca perguntava ao motorista o destino. Ele apenas entrava em qualquer ônibus que viesse.
   Para Denis, isso é poesia. Para mim, a história também sugere um aspecto da fotografia que mais une meu trabalho com o de Rebecca, minha esposa e parceira criativa. Embora os nossas maneiras de ver sejam bastante diferentes, nós dois abraçamos a ideia de que a fotografia e a criação de livros são uma aventura criativa, intuitiva e não racional, espontânea e não antecipada.

Rebecca Norris Webb - Espelho Retroviso, 2005-11

   Com seu começo na poesia, a jornada criativa da Rebecca mapeia o mundo natural que ela freqüentemente fotografa - incluindo o oeste americano, onde ela cresceu - e simultaneamente sua própria paisagem interior. Cada vez mais seu trabalho entrelaça seu texto lírico e fotografias, uma maneira única de fazer livros muito guiados pelos seus olhos de poeta.
   Às vezes, nosso trabalho e jornadas criativas convergem. Isso é mais óbvio em nossos livros e exposições colaborativas, mas também em nossas oficinas, onde tentamos compartilhar com os outros a experiência de trabalhar dessa maneira, com o mundo como seu parceiro. Este livro ecoa nossos vários esforços colaborativos, trabalhando como uma espécie de dueto, ou ponto/contraponto, indo e voltando entre nossas duas visões ligadas, mas distintas, enquanto eu me concentro mais no mundo da fotografia de rua e Rebecca no mundo da imagem poética.
   Finalmente, acreditamos que, se você tem fé em sua fotografia, isso acabará por levá-lo aonde você precisa ir - qualquer que seja o ônibus que você entre. 
- Alex Webb (AW)


A PRIMEIRA FOTOGRAFIA

 Alex Webb - Leste de Londres, 2010


Quando eu estou fotografando pessoas na rua - seja em Londres, Instabul, Madri, Havana, Oxaca, Seul, ou em Nova York, onde moro - a primeira vez que eu aperto o disparador é como se eu estivesse perguntando: Posso tirar uma foto? E a segunda vez: posso tirar outra foto? E depois outra... - AW

 


O OLHO DA CAMERA

Rebecca Norris Webb - Montanha Fantasma, 2005-11

 

Originalmente uma poetisa, eu percebi que minha escrita me desertou depois que entrei na faculdade. Olhando para trás, eu ach que o tipo de poesia lírica que eu escrevia não continha o suficiente da amplitude do mundo – nem minha curiosidade sobre ele. Minha resposta ao bloqueio de escrita foi comprar uma pequena câmera e viajar por um ano, na esperança que
minhas fotografias despertassem minha poesia novamente quando voltasse. Ao invés disso, me apaixonei pela fotografia. Eu percebi que o olho que focava nas imagens da poesia era o mesmo olho que olhava através da lente.
   Eu acho que Wright Morris, um poeta e fotógrafo do Nebraska, falou melhor sobre isso: “Eu não deixo de lado o olhar fotográfico quando escrevo, somente a câmera.”
- Rebecca Norris Webb (RNW)

 

 

PROCURANDO POR FOTOGRAFIAS

Alex Webb - Matamoros, Mexico, 1978

Embora minhas fotografias sejam frequentemente descritas como complicadas, meu real processo como um fotógrafo de rua é muito simples. Eu sinto, quase “cheiro” a possibilidade de uma fotografia. Eu tento seguir o ritmo das ruas, às vezes andando por situações, outras vez permanecendo nelas. Tudo depende do que o mundo me dá em um determinado dia.
    Essa maneira de trabalhar me lembra o que um professor meu, Charles Harbutt, escreveu certa vez: "Eu não faço fotos, as fotos que me fazem ... não posso fazer nada além de ter filme na câmera e estar alerta.”
- AW

 

Charles Harbutt - Garota na Janela, Maine, 1968


 

Rebecca Norris Webb - Luz de Tempestade, 2005-11 


FALE LEVEMENTE

Rebecca Norris Webb - Brieana, Rocherster, Nova Iorque, 2013

 

Em sua forma mais básica, a visão de um fotógrafo nada mais é do que a sua ou seu olhar particular. Meu olhar tende a ser sonhador e um pouco torto, como se eu estivesse olhando para o mundo de canto de olho. Talvez seja porque eu era extremamente tímida quando criança, roubando olhares de relance pelo mundo, perdida em devaneios.

   Talvez ler poesia demais seja a culpa. Seja qual for a causa, tento seguir a diretriz de Emily Dickinson, minha poetisa favorita: "fale toda a verdade, mas fale levemente.”. - RNW

 

 

ANDANDO E ESPERANDO

Josef Kouldeka - Espanha, 1975

Mais frequente do que o contrário, eu me aproximo de um lugar caminhando. Pois o que um fotógrafo de rua faz a não ser andar e observar e esperar e conversar, e então observar e esperar um pouco mais, tentando permanecer confiante de que o inesperado, o desconhecido ou o coração secreto do conhecido aguarda no virar da esquina.

    Anos atrás eu estava em um metrô com Josef Koudelka, que eu não via a alguns anos, sentado com minhas pernas cruzadas. De repente, Josef se aproximou e pegou meu sapato, virando o para que ele pudesse inspecionar a sola. De sua maneira direta, tcheca, ele queria ver se eu vinha andando o suficiente - e, consequentemente, fotografado o suficiente. - AW

 

Josef Koudelka - Altos do Sena, Parque de Sceaux, França, 1978

"A poesia é apenas a sombra do cão...
O cão está em outro lugar, e constantemente
em movimento."

    - Charles Wright

 

Sou mais atraída por imagens poéticas que são sugestivas, elusivas e, em última instância, misteriosas - como o evocativo cão preto de Koudelka. - RNW

 

 

A IMAGEM LUMINOSA

Rebecca Norris Webb - Ilha Coney, 1998

"A imagem é uma ideia, uma ideia verdadeira, 

primeiro uma ideia que um conceito."
    - Li-Young Lee

Minhas jornadas criativas tipicamente começam com uma imagem que eu vejo no mundo - às vezes uma vez, às vezes repetidamente - uma imagem que por alguma razão entra debaixo da minha pele. Ademais, se mais tarde isso atrair outras imagens, tanto visuais quanto escritas, essas imagens juntas criam uma única entidade - algo maior, mais complicado, mais vivo do que a imagem individual sozinha. Quando isso acontece, posso muito bem ter o começo de um novo livro.   

   Em The Glass Between Us, a imagem inicial era uma baleia beluga, flutuando quase acima das cabeças dos visitantes do aquário, cujos rostos estavam refletidos no tanque de vidro. Levantando minha câmera, pensei comigo mesmo: Vou me livrar desse reflexo. Então eu percebi, não! - há algo intrigante sobre a relação entre a baleia e os reflexos das pessoas. Eu cliquei o obturador. Essa primeira fotografia começou minha exploração da complicada relação entre pessoas e animais em cerca de vinte e cinco cidades ao redor do mundo.

   Na maioria das vezes, eu fotografei os animais em cativeiro através de algum tipo de barreira transparente, como o tanque de vidro em aquários, as caixas de espécies em museus de história natural ou as paredes de acrílico das casas dos macacos em zoológicos. Às vezes, quando a luz estava de certa, o vidro que nos separava mostrava o reflexo das pessoas respondendo aos animais, os rostos criavam uma mescla de maravilha e ironia, encanto e tristeza, conexão e isolamento. Às vezes, quando a luz estava certa forma, o vidro tornou-se uma janela, uma parede e um espelho.

Rebecca Norris Webb - Pássaros Pretos, 2005-11


   Enquanto trabalhava em My Dakota, uma elegia (pequeno poema) para um dos meus irmãos que morreu de forma inesperada, fui atraída por um bando de pássaros - milhares deles - voando pelo tempestuoso céu do Oeste como se fossem uma criatura enorme, escura e voraz, pegando os restos dos campos de girassóis nos últimos dias do outono. Parecia não ter importância a rapidez com que parei o carro e levantei a câmera até o meu olho. Inevitavelmente, a revoada escura desapareceu tão rápido quanto tinha aparecido.

   Durante uma semana inteira, sonhei com esses pássaros negros. Finalmente, uma tarde perto da pequena cidade de Grey Goose, Dakota do Sul, vi o rebanho pairando sobre o campo de girassóis. Subi pela cerca de arame farpado e corri para o campo, imaginando o que diria ao fazendeiro se ele me pegasse invadindo sua terra. Então aconteceu algo que eu não estava esperando - o rebanho permaneceu por um tempo.

   Havia mais sementes do que o habitual para se alimentar? Os girassóis imponentes me escondiam dos pássaros nervosos? Devagar e silenciosamente, eu me aproximei, até que eu estava de pé diretamente atrás de um dos mais altos girassóis do campo. Sob o grande miolo da flor abaixada, eu cliquei o obturador por várias vezes até que o rebanho escuro desaparece mais uma vez no céu nublado, cinzento e frio de Novembro. - RNW

 

 

Harry Gruyaert - Trem Paris-Bruxelas, 1979


COR É EMOÇÃO

Alex Webb - Gouyave, Granada, 1979 

 

Como muitos fotógrafos da minha geração, inicialmente trabalhei apenas em preto e branco, influenciado por fotógrafos de rua como Bresson, Kertész, Robert Frank e Lee Ferdinand. Na verdade, como um jovem fotógrafo no início dos anos 1970, eu estava renegando bastante a cor na fotografia, julgando-a como grosseira e comercial, distante do coração e da alma da fotografia. No entanto, em meados da década de 1970, quando comecei a fotografar em preto e branco no Haiti e na Jamaica, bem como ao longo da fronteira entre os EUA e o México, percebi que algo estava faltando - aquela sensação de luz dura e cor intensa desses mundos. Por conta dos lugares onde eu escolhi fotografar - lugares onde a cor parece ser uma parte integral da cultura e onde a vida é frequentemente vivida na varanda e na rua - me tropecei em um jeito de trabalhar em cores vibrantes e saturadas.

   Comecei a perceber que a cor não é apenas sobre cor. Cor é emoção e se, preto e branco vem do coração ou da cabeça, "a cor vem mais do estômago", como o fotógrafo belga Harry Gruyaert disse uma vez. Para mim, a cor parece mais sensual do que preto e branco. Às vezes um vermelho pode ser suave e, as vezes vermelho pode significar uma ameaça, tudo depende da sensibilidade, da história pessoal e da cultura que carrega o espectador. - AW

 

Alex Webb - Cidade de Plant, Flórida, 1989

 

 

SOBRE AZUL
 

Olhando para trás, talvez pode muito bem ter sido o meu primeiro vislumbre dos céus o Oest Americano - do banco de trás do Chrysler 300 de 1964 do meu pai - que mais tarde me transformou em uma fotógrafa de cores. Além das cores dos filmes de Faroeste, eu nunca tinha visto céus tão espetaculares de azul. Aqueles grandes céus de Dakota do Sul falava com a sonhadora que eu era - uma adolescente relutante se mudando para o oeste de Indiana com minha família em 1972 – como eles falam com a fotógrafa que eu sou hoje.
   "Entre aquela terra e aquele céu me senti apagado, borrado", para citar a narração de Willa Cather em My Ántonia, uma das minhas novelas favoritas sobre as grandes planícies Americanas. Tanto Willa Cather quanto o fotógrafo Robert Adams também se mudaram para o oeste com suas famílias quando estavam crescendo. Eu sempre me perguntei se essa mudança para o oeste, chegando a um lugar tão crucial, ajudou a esculpir suas identidades como artistas e como ambientalistas.

   Ao longo dos anos, descobri que os céus do oeste me ensinam tudo que sei sobre o azul. - RNW

Robert Adams - Estrada Estadual de Nebraska 2, Condado de Box Butte, 1979

 

 

Rebecca Norris Webb - Badlands, 2005-11 

 


A GRACIOSIDADE DOS OUTROS

​Alex Webb - Bombaim, Índia, 1981

 

Toda cultura tem seus próprios costumes, suas próprias tradições; Cada grupo de seres humanos tem um senso diferente de privacidade e espaço pessoal. Então, fotografar em ruas em diferentes culturas inevitavelmente exige estratégias diferentes. Em alguns lugares, as pessoas parecem quase abraçar a presença de um fotógrafo; outros resistem a ele. O que funciona para um fotógrafo em Havana, pode não funcionar em Londres. Em Marrocos, as pessoas muitas vezes evitam ser fotografadas por pessoas de fora; na índia, são tão curiosos com estranhos que, mais tarde, muitas vezes nós descobrimos rostos sorridentes inesperados que aparecem as margens das fotografias.
   Como saber se alguém será aceito em uma determinada cultura? Para mim, a única maneira é simplesmente sair pelas ruas e ver o que acontece. Em um dia de neve na Armênia, fiquei agradavelmente surpreso ao ser convidado para um lanche. Na Jamaica, lembro-me de minha apreensão com um rastafari de olhos vermelhos, com dreadlocks, que me abordou nas ruas de Trenchtown, uma das favelas mais notórias de Kingston, apenas para dizer: "Alguns Rastas, são lobos. Eu sou uma ovelha.". Então ele sorriu largamente - um sorriso anestesiado, induzido por ganja.

   Há também muitos lugares onde não se pode simplesmente andar por aí e fotografar, onde há muitos crimes ou violência, ou talvez uma suspeita de generalizada à câmera fotográfica. Nesses casos, o fotógrafo pode precisar de outra pessoa - um assistente social, um líder comunitário ou simplesmente um morador local - para ajudar a entrar nesses mundos. Ou ele pode precisar retornar a um bairro muitas vezes para estabelecer confiança com uma comunidade em particular.
   No final, não é só o que o mundo dá ao fotógrafo, é também o que o fotógrafo traz para o mundo. Se o fotógrafo parece nervoso na rua, as pessoas ao seu redor também se sentirão nervosas. Se ele aproxima das situações com um senso de naturalidade ou um senso de humor, e com seriedade e respeito pela cultura, ele pode descobrir que será bem recebido em outros mundos. Não há nada de errado com brincadeiras gentis, ou permitir-se ser o alvo de piadas. Afinal de contas, nós, fotógrafos, muitas vezes parecemos um pouco bobos andando pelas ruas em busca daquilo que imaginamos ser momentos indescritíveis.
   Em última análise, quanto tempo um fotógrafo de rua pode persistir em certas situações é, em grande parte, devido à graciosidade dos outros
. - AW

 

 

O PARADOXO DE MEATYARD

Eu me lembro exatamente onde eu estava quando vi pela primeira vez a fotografia de Ralph Eugene Meatyard: Foi há vinte e cinco anos atrás, na pequena biblioteca no antigo International Center Of Photography em Nova York, onde eu estava estudando fotografia. Eu estava folheando a monografia de abertura, que o poeta e fotógrafo de Kentucky, James Baker Hall, editou em 1974, dois anos após a morte prematura de Meatyard.
   Fiquei hipnotizada pelas imagens bastante estranhas e misteriosas de Meatyard. Aparentemente simples para os olhos, elas provocam uma série de emoções contraditórias: prazer e melancolia, calma e condenação iminente. Paradoxos parecem estranhamente a vontade em seu trabalho e, olhando para as imagens, eu me sentia a vontade também, ou pelo menos em um terreno familiar - o terreno da poesia.
   Lembro-me de ter sido particularmente atingida pela seguinte passagem escrita pelo poeta Guy Davenport, amigo de Meatyard, que li pela primeira vez naquela pequena biblioteca do ICP:


"Eu assisti Gene durante todo o dia passeando

na arruinada parede branca, fotografando

tão cuidadosamente como se ele fosse um cinegrafista

de noticiário em uma batalha. A velha casa era tão

quieta e imóvel quanto a própria eternidade; mas para Gene era
tão 
efêmero em sua mudança de luz e sombra,

quanto uma mariposa esporádica.”

Talvez seja preciso um poeta para iluminar as obsessões de outro poeta.
- RNW

Ralph Eugene Meatyard - Sem Título (Michael em frente a parede deteriorada), 1960

 


ENQUADRAMENTOS CHEIOS

Alex Webb - Novo Laredo, México, 1996

 

Como um fotógrafo estou sempre procurando por mais – mais elementos que
melhoram ou transformam a imagem.

   Eu acho que sempre fui atraído por fotografias visualmente complexas. Muitas das minhas primeiras fotografias contêm mais de um elemento, têm mais de um ponto de vista. Com o passar dos anos, elas se tornaram ainda mais complexas. Hoje em dia, muitas vezes sinto como se estivesse andando por uma frágil linha visual–  espremendo o quadro para incluir mais e mais, até o quase caos.

   Estou intrigado como múltiplos estados, múltiplas situações e múltiplos momentos podem coexistir, espremendo se e qualificando se mutuamente. Eu sou atraído por fotografias que não mostram simplesmente a existência de uma coisa, mas sim a existência simultânea de muitas coisas, algumas vezes de maneiras que podem parecer contraditórias.

   Eu não estou falando de complexidade pela simples complexidade. Eu tiro fotos complexas porque o mundo que experimento é um lugar complicado e, em última instância, inexplicável. - AW

 

Alex Webb - Havana, 2000 

 

 

EU SONHO COM JORNADAS

 

Embora a fotografia tenda a ser uma jornada solitária, muitas vezes você acaba levando os outros para o passeio.

   Dirigindo pela paisagem ocidental enquanto trabalhava em My Dakota, não pude deixar de pensar na imagen de Robert Frank View de Hotel Window, do trabalho The Americans. Eu sempre fiquei maravilhada com a forma como Frank conseguiu captar não apenas a sensação do centro desta cidade minúscula, mas também algo mais difícil de definir (melancolia? ironia? devaneio? uma mistura de todos os três?). Seja o que for, sugere a complexa interioridade de Frank enquanto olhava através das cortinas transparentes de seu quarto de hotel na distante chaminé da cidade minerada - e a triste realidade do que o Ocidente americano se tornara em meados dos anos 50. É uma visão que não deveria "merecer uma segunda olhada", escreve o crítico e romancista cultural britânico Geoff Dyer, mas "exige que voltemos a ela repetidas vezes". Para mim, isso geralmente é um sinal de que estou olhando para uma imagem verdadeiramente poética.

   Não era apenas a fotografia lírica de Frank que vinha em minha cabeça nessa viagem da minha dor e luto pelo meu irmão Dave. Eu também estava trazendo alguns dos meus poemas favoritos de viagem de carro, muitos deles focados no mundo tecnológico do automóvel e do mundo natural fora de suas janelas: "Duas forças - uma para frente movendo-se, sem pensar, outra parada e reflexiva - conectam e desconectam a gente", observa a poeta Marianne Boruch. Ela acrescenta: "A partida sem facilidade parece profundamente americano". Dirigindo pelas extensões remotas de Dakota do Sul, às vezes eu não encontrava outro carro por quilômetros, lembrando aquelas primeiras linhas do poema de viagens de Theodore Roethke, The Far Field:

 

"Eu sonho com viagens repetidamente . . .
De dirigir sozinho, sem bagagem, por uma longa península . . .
Uma neve seca e fina toca o para-brisa . . ."

 

Era quase anoitecer daquele dia de inverno em 2006 quando finalmente parei meu carro em frente a essa casa abandonada. Eu estava dirigindo impaciente por umas quatro horas, através de um trecho da pradaria que nunca havia cruzado antes. Terreno plano e luz plana até onde os olhos podiam ver. Em algum lugar eu tinha virado errada. O rádio do carro avisou que a neve estava chegando. Meu celular estava morto e eu estava perdida.

   A fazenda me lembrou da casa dos meus avós, onde passei muitos verões de infância com meu irmão, Dave, seu irmão gêmeo, Mike e minhas irmãs Mary e Debbie. Lembro-me do zunido interminável de besouros na tela da porta traseira da vovó Raisovich, e como ela amarrava uma corda em torno daqueles corpos verdes cintilantes para que pudéssemos nos segurar a todo aquele zumbido.

   Chegando ao lado daquela casa abandonada, fiquei surpresa ao encontrar a porta dos fundos aberta, como se estivesse me chamando para entrar. Cruzei cautelosamente o chão da sala de estar, que estava repleto de brinquedos infantis e caixas de cereais. Parecia, sinistramente, como se a família tivesse apressadamente empacotado as coisas e partido na noite anterior - embora tivesse sido a mais tempo, a julgar pelo espessa poeira cobrindo tudo. Talvez as chuvas marginais e o clima brutal de Dakota do Sul fossem, em grande, parte os culpados pela sua partida repentina, tendo derrotado muitos fazendeiros por mais de um século.

   Fiz uma pausa em frente a esta janela da sala de estar com sua cortina parecida com uma mortalha e a visão de um silo distante. Eu lentamente levantei a câmera para o meu olho. - RNW

Rebecca Norris Webb - Casa de Fazenda Abandonada l, 2005-11


 

TERRA INCÓGNITA

Lee Friedlander - Knoxville, Tennessee, 1971

 

Eu gosto de fotografias que me levam a algum lugar que eu nunca estive antes. Sou atraído por imagens que me expõem a algo inesperado no mundo ou, especialmente, a uma maneira única de ver. Eu amo a surpresa de uma fotografia, o mistério de uma fotografia, a pequena reviravolta ou o toque de humor que faz, de uma fotografia, mágica. Quem, senão Lee Friedlander, teria visto esta nuvem flutuando acima da placa? - AW

Henri Cartier-Bresson - Valência, Espanha, 1933

 

Aos quatorze anos, comecei a vasculhar os livros de fotografia de meu pai. Enquanto eu contemplava O Momento Decisivo, lembro-me de ter visto esta imagem de Henri Cartier-Bresson de Valência, Espanha. Eu nunca vi nada como isso.

   Lembro-me de pensar: como alguém pode ver dessa maneira? Como alguém pode encontrar um momento tão enigmático no mundo e trazê-lo de volta como uma fotografia? Comecei a sentir algo sobre percepção, sobre o momento e sobre o espaço. - AW

 

 

A METÁFORA INESPERADA

Rebecca Norris Webb - Ninhos de Andorinhas Quebradas, 2005-11

 

"Duas verdades se aproximam.
Uma vem de dentro, a outra
de fora e onde elas se encontram
temos a chance de ver
nós mesmos."

   -Tomas Tranströmer

 

Você já viu uma preguiça de três dedos passar por um galho de árvore? É uma espécie de cruzamento entre o sonambulismo e um sonolento despertar do início da manhã. Eu acho que minhas imagens lentamente me levam a entender o mundo de uma maneira similar.

   "Minha imaginação ... tateia para frente, sentindo o caminho para o que precisa ... estende a mão, dentro da paisagem à nossa frente", escreve o poeta Mark Doty. E essas metáforas agem como um "recipiente para emoção e idéia ... [para] manter o que é escorregadio ou carregado ou difícil de tocar", acrescenta Doty.

Rebecca Norris Webb - Antilocapra, 2005-11

 

Ao longo dos anos, aprendi que minhas imagens são muito mais sábias do que eu. Muitas vezes me leva meses e às vezes anos para entender o que eles estão tentando dizer para mim. Foi apenas na décima primeira hora, enquanto trabalhava no meu livro My Dakota, uma elegia (pequeno poema) para o meu irmão que morreu inesperadamente, que notei o padrão de ondas em várias das imagens, desde essas faixas azuis onduladas do ninho das andorinhas até as ondas de gelo ao lado de um antilocapra morto descansando em uma vala de beira de estrada. Por quase trinta anos - desde que um rancheiro me deu o fóssil de uma criatura marinha que ele encontrou em sua terra seca - eu fiquei fascinado pelo vasto mar interior que cobriu boa parte de Dakota do Sul há milhões de anos atrás... - RNW

 

 

ONDE A ESTRADA É UM RIO

Alex Webb - Everglades, Flórida, 1988

 

Para mim, a fotografia de rua não significa necessariamente fotografar nas ruas. Por uma razão, a rua nem sempre é onde está o coração da uma cultura. Mais do que qualquer outra coisa, eu acho que a fotografia de rua sugere uma postura ou atitude particular do fotógrafo em relação ao mundo: uma espécie de exploração aberta com ênfase na descoberta, uma sensação de perambulação que é dada pela curiosidade ao invés de uma ideia ou meta inicial. 

   Durante minhas freqüentes viagens ao Haiti em meados dos anos 80, muitas vezes me vi preso no aeroporto de Miami, esperando a violência em Porto Príncipe diminuísse e o aeroporto do Haiti para reabrir. Como resultado, comecei a olhar para o estado da Flórida. No Haiti, a maioria das pessoas caminha. E é isso que eu fazia. Na Flórida, a maioria das pessoas dirige. Então eu finalmente me vi dirigindo por este estado estranho, visitando parques de diversões e casas antigas, trabalhadores migrantes e adoradores do sol. Em vez da minha caminhada lenta habitual, dirigir se tornou o devaneio. Em vez de me atirar para a frente para fotografar repentinamente as situações, tive que lidar com a porta do carro, uma barreira que não é apenas física, mas psicológica. Quando você está andando na rua, o processo de entrar no mundo de outras pessoas pode ser relativamente sem emendas.

Alex Webb - Rio Amazonas, Colombia, 1993

 

Quaisquer dúvidas que você tenha sobre a situação podem ser dissipadas dando alguns passos à frente e simplesmente fotografando. Mas deixar a bolha do carro para entrar em outro mundo - isso é outro assunto. Envolve uma série de perguntas sobre se vale a pena parar o carro e sair, só para começar, muito menos tomar as medidas necessárias para entrar nesse outro mundo.

Alguns anos depois de ter fotografado a Flórida, encontrei-me na Amazônia brasileira, o mundo dos mestiços caboclos, onde culturas européias e indígenas se misturam. É um lugar de cabanas em ruínas e festivais fantásticos.
A vida é dominada pelo rio, uma fonte primária de alimento e comércio. Muitas comunidades são completamente isoladas, acessíveis somente pela água ou pelo ar. Nesses lugares, eu não conseguia nem usar um carro, muito menos meus pés. Então, por seis semanas, eu vivi em um barco, viajando lentamente rio acima em direção à fronteira colombiana. Meu projeto fotográfico tornou-se uma história de estrada, com o rio uma rodovia, meu barco um carro.
- AW

 

 

ERROS COMO ROTEIROS

"É importante tirar fotos ruins.
São os ruins que têm a ver como
que você nunca fez antes.
Isso pode fazer você reconhecer algo
você não tinha visto de uma maneira que vai
fazer você reconhece quando vê de novo."

   - Daine Arbus

 

Muitas das minhas folhas de contato do The Glass Between Us estão cheias de erros. Ocasionalmente, alguns contatos não possuem mais do que caudas ou asas borradas; outros mostram imagens mais promissoras impedidas por minhas frustrantrante decisões complicadas. Acabei mantendo algumas dessas folhas de contato para servir como uma espécie de lembrete ou roteiro, para o caso de ter a oportunidade de revisitar o mesmo local.

   No início do projeto, uma amiga em Paris, Agnès Sire, que agora é a diretora da Fundação Cartier-Bresson, contou-me sobre um zoológico de Paris que teve uma cena de savana africana pintada por um famoso muralista de francês nos anos 30. Eu visitei vi o adorável e desbotado mural mas, infelizmente, não havia nenhum animal a vista. Um ano depois, decidi voltar ao zoológico. Quando começou a chover suavemente, juntei meu equipamento para sair quando notei que o zelador estava prestes a pastorear um rebanho de girafas para dentro do recinto com o mural. Eu acabei me prolongando por duas horas - apenas as girafas e eu - e fiquei surpresa e encantada com o fato de a deusa da fotografia ter sorrido para mim naquele dia.
Como Bruce Davidson, que tirou essa fotografia maravilhosa de um cavalo no País de Gales, uma vez disse, a fotografia depende dos três P's: paixão, persistência e paciência. 
- RNW

 

Bruce Davidson - Cavalo, País de Gales,  1965

 

 Rebecca Norris Webb - Paris, 2002

 

 

ACASO

Alex Webb - Brooklyn, 11 de Setembro de 2001

 

A fotografia - ou pelo menos a fotografia não-manipulada - parece rara entre as formas de arte, na medida em que o acaso desempenha um papel no processo criativo. Os fotógrafos estão à mercê do mundo e o mundo e o mundo apenas lhes dão muito.
   Em 11 de setembro de 2001, lembro-me de assistir na TV com Rebecca quando o segundo avião colidiu com as Torres Gêmeas. Enquanto reunia minhas câmeras em nosso apartamento no Brooklyn para me dirigir à parte baixa de Manhattan, Rebecca - que teve pouca experiência em fotografar conflitos ou violência - disse que queria ir comigo. Eu recuei. Ela não deveria ficar no Brooklyn, longe do caos? Talvez eu nem devesse ir - uma idéia surpreendente para um fotógrafo como eu, que algumas vezes cobri situações violentas no passado. Quem saberia o que poderia acontecer com a nossa cidade naquele dia terrível? E se fôssemos separados e incapazes de nos comunicar durante outra onda de violência? Então escolhemos sair juntos e fazer uma das poucas coisas que sabemos fazer - responder com uma câmera. 

   E foi uma grande chance, quando, depois de estacionar nosso carro perto da ponte do Brooklyn para ir a Manhattan a pé, uma mulher saiu de um prédio no Brooklyn Heights e perguntou se queríamos ver como era Manhattan do seu telhado. Agora, olhando de volta para esta fotografia cerca de doze anos depois, não tenho certeza se teria visto esta fotografia em particular - com sua nota de ternura e tragédia iminente - se Rebecca não estivesse comigo.

Alex Webb - San Ysidro, California, 1979

 

   No final do verão de 1979, acompanhei um oficial de patrulha de fronteira para observar e fotografar as atividades de sua unidade em San Ysidro, Califórnia, do outro lado da fronteira, em Tijuana, no México. Passamos a maior parte do dia ao longo da "linha", a área perto da cerca da fronteira onde a maioria das prisões estava ocorrendo. Na época, um grande número de migrantes atravessava a região de fronteira com regularidade, e a patrulha de fronteira estava claramente sobrecarregada, muitas vezes prendendo grupos de vinte e cinco ou mais de cada vez. Minhas fotografias das prisões em massa fizeram o trabalho, mas as imagens não eram especiais: elas mostravam como era a situação, mas não como como era o sentimento.

   No final do dia, enquanto nos dirigíamos por uma estrada paralela à fronteira, olhei pela janela do passageiro. O sol, difundido por uma neblina do sul da Califórnia, se aproximava do horizonte, e um campo de flores amarelas parecia brilhar em cores. Eu notei pequenas figuras à distância e um helicóptero pairando. Apressando o motorista para parar o carro, eu corri para o campo de flores para testemunhar e fotografar a infelicidade de uma prisão se desdobrando. - AW

 

 

PERDIDA E PERDA

 

Quando olho para algumas das desorientadoras fotografias em My Dakota, como Cottonwoods, uma imagem em que é difícil distinguir o primeiro plano do fundo, percebia que sentir nebulosa, perdida e confusa fazia parte do meu luto. Aqueles primeiros meses depois que meu irmão morreu, meu sonhos com ele pareciam mais real do que quando eu acordava em um mundo sem ele. Além disso, eu não estava dormindo bem e estava viajando sozinha em partes desconhecidas de Dakota do Sul. Quando olho para aquela época difícil da minha vida, lembro-me de um borrão de quartos de motel, estradas secundárias e sonhos com meu irmão.

   Talvez não surpreendentemente, eu não apenas me senti confusa ao fotografar em Dakota do Sul, mas também me senti confusa quando voltei para minha casa no Brooklyn para editar o filme e tentar encontrar um sentido no que eu estava fazendo. Eu me lembro de mostrar o trabalho para o meu amigo, Eugene Richards, que naquela época estava indo e voltando do Brooklyn para as Grandes Planícies para trabalhar em seu livro, The Blue Room. Quando ele me perguntou como as coisas estavam indo com o projeto, eu disse a ele que não tinha certeza do que estava fazendo.

   Ele respondeu com sua voz gentil: "Becky, às vezes a confusão é boa". - RNW

 

Rebecca Norris Webb - Cottonwoods, 2005-11


SOMBRAS DE METZKER

Ray Metzker - Sailor, 1963

 

Como um fotógrafo de rua em formação, eu passava horas encolhido sobre uma pilha de livros na biblioteca da minha escola de Vermont, muitos deles clássicos: obras de Cartier-Bresson, Kertèsz, Frank.
   Fiquei particularmente impressionado com um pequeno livreto chamado Toward a Social Landscape - que incluiu os primeiros trabalhos de Garry Winogrand, Lee Friedlander e Bruce Davidson, entre outros, e foi editado pelo fotógrafo Nathan Lyons - assim como uma seleção das fotografias de Ray Metzker entitulado My Camera and I in the Loop, em um número da Aperture. Embora rememorativo das fotografias de rua de seu professor, Harry Callahan, o trabalho de Metzker atingiu sua própria nota especial: feixes de luz fortes ecruzando sombras impenetráveis; figuras autônomas entrando e saindo da luz, presas a uma espécie de claro-escuro em preto-e-branco; faces isoladas espiando para fora da escuridão.
   Não é apenas o domínio formal dessas imagens que me cativa. Elas também sugeriram algo sobre o isolamento, a alienação e a solidão do mundo urbano. 
- AW

 

Alex Webb - Kampala, Uganda, 1980

 

 

SOBRE TENSÃO CRIATIVA